O aumento da urbanização tem vindo a associar-se a alterações relevantes na saúde física e mental da população. A vida em contextos urbanos, marcada por ritmos acelerados, exposição contínua a estímulos artificiais e menor contacto com ambientes naturais, pode contribuir para níveis mais elevados de stress, fadiga e desequilíbrios funcionais.
Os seres humanos evoluíram em estreita relação com a Natureza. Ao longo de cerca de 200 000 anos, o organismo humano desenvolveu-se em ambientes naturais, regulado por ciclos de luz e escuridão, variações de temperatura e padrões sazonais ligados ao cultivo e à colheita. Esta relação prolongada moldou a nossa biologia e os nossos mecanismos de adaptação.
Apesar das profundas transformações culturais e tecnológicas, o corpo mantém muitas das características adaptativas desenvolvidas nesse contexto. A fisiologia humana continua sensível aos estímulos naturais, mesmo quando o estilo de vida moderno reduz significativamente o contacto com eles. Atualmente, o contacto com a Natureza tende a ser encarado sobretudo como lazer ou entretenimento, quando, do ponto de vista da saúde, pode desempenhar um papel regulador relevante.
Já na Antiguidade, Hipócrates, considerado o Pai da Medicina, reconhecia a influência do ambiente na saúde ao referir a importância dos “ares, águas e lugares” para o bem-estar físico e mental. Esta perspetiva antecipa a compreensão atual de que o contexto ambiental desempenha um papel relevante na regulação do organismo e na manutenção da saúde.
Natureza e resposta fisiológica
A exposição a ambientes naturais envolve o organismo em estímulos variados, como superfícies irregulares, variações de luz, sons naturais e mudanças de temperatura. Estes estímulos ativam mecanismos adaptativos que podem contribuir para a regulação dos sistemas cardiovascular, respiratório e nervoso. Caminhar em trilhos naturais, por exemplo, exige maior coordenação motora e ajustamento postural, estimulando a resistência física e a capacidade funcional.
A exposição à luz solar está associada à síntese de vitamina D, importante para a saúde óssea e para diversos processos hormonais. Estes efeitos refletem a forma como o ambiente natural interage com a fisiologia humana de forma integrada.
Impacto na saúde mental e emocional
Para além dos efeitos físicos, o contacto com a natureza tem sido associado a benefícios ao nível da saúde mental. Estudos indicam que caminhar em ambientes naturais pode contribuir para a redução do stress e da ansiedade, promovendo uma maior sensação de calma e recuperação. A presença de estímulos naturais parece também favorecer a atenção, a criatividade e a capacidade de concentração, particularmente em contextos de sobrecarga cognitiva.
Na sociedade atual, apesar dos avanços da medicina, da automação e da maior disponibilidade de recursos, observa-se frequentemente uma intensificação do stress, associada à pressão constante, à fragmentação do tempo e ao excesso de informação. Este contexto torna ainda mais relevante a procura de estratégias que favoreçam a regulação do sistema nervoso no dia a dia.
Shinrin-yoku e evidência científica
Uma das práticas mais estudadas neste âmbito é o Shinrin-yoku, ou “banho de floresta”, uma abordagem desenvolvida no Japão que consiste na exposição consciente a ambientes florestais, utilizando os cinco sentidos. Esta prática baseia-se na ideia de que o contacto atento com a floresta pode apoiar processos de regulação física e mental.
Diversos estudos científicos têm analisado os efeitos do Shinrin-yoku. Investigações realizadas em ambientes florestais demonstraram associações com níveis mais baixos de cortisol, redução da frequência cardíaca e da pressão arterial, bem como maior ativação do sistema nervoso parassimpático, associado a estados de repouso e recuperação. Revisões sistemáticas e meta-análises mais recentes sugerem benefícios ao nível do stress, do humor, do sono, da pressão arterial e de marcadores da função imunitária.
Estes efeitos não devem ser entendidos como substitutos de cuidados médicos, mas como potenciais contributos no contexto de uma abordagem integrada da saúde.
Formas de contacto com a Natureza
O contacto com a Natureza pode assumir diferentes formas, desde caminhar em ambientes florestais, parques ou zonas costeiras, até práticas mais simples, como a observação de paisagens naturais.
O contacto direto com superfícies naturais, como terra, relva, areia ou água do mar, é uma prática designada por grounding e pode contribuir para uma maior perceção corporal. Do ponto de vista fisiológico, o grounding tem sido associado a estados de menor hiperativação do sistema nervoso, podendo apoiar processos de relaxamento e regulação. Para além disso, o contacto direto com o solo envolve estímulos sensoriais contínuos e ajustes posturais subtis, que podem favorecer a integração sensório-motora e a estabilidade corporal.
Compreender o contacto com a Natureza numa perspetiva integrativa
Integrar o contacto com a Natureza no dia a dia pode apoiar a saúde física e mental, contribuindo para a redução do stress, a melhoria do bem-estar emocional e o apoio às funções cognitivas. Mais do que uma solução isolada, trata-se de um elemento que pode complementar outras práticas de autocuidado, respeitando a individualidade e o contexto de vida de cada pessoa.
A Natureza é um recurso acessível e presente, cuja integração consciente pode favorecer processos de autorregulação do organismo e uma relação mais equilibrada com o ambiente e consigo próprio.
David Brandão | Osteopath and Physiotherapist
Specialised in Clinical Psychoneuroimmunology
Physiotherapist Card: 3652 | Order of Physiotherapists // Osteopath Card: C-0031697 | ACSS
Reference articles
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