O que diz a evidência científica atual e o enquadramento do protocolo PEACE & LOVE
O gelo é uma das estratégias anti-inflamatórias mais antigas e utilizadas após uma lesão, seja numa entorse, numa contusão ou em situações de dor ou edema de origem pouco clara. A maioria das pessoas já recorreu à aplicação de gelo nestes contextos. No entanto, à luz do conhecimento científico atual, importa questionar se o gelo e o repouso continuam a ser a melhor abordagem nas fases iniciais de uma lesão.
Durante décadas, o gelo foi amplamente utilizado na fisioterapia como estratégia principal na gestão de lesões agudas dos tecidos moles. Esta abordagem ganhou notoriedade com o protocolo RICE, repouso, gelo, compressão e elevação, proposto em 1978 pelo médico Dr. Gabe Mirkin.
Da abordagem RICE ao questionamento científico
Com o avanço do conhecimento, o protocolo RICE foi sendo ajustado. Em 2012, surgiu o PRICE, proteção, repouso, gelo, compressão e elevação, e, mais tarde, o POLICE, proteção, carga otimizada, gelo, compressão e elevação. No entanto, estudos mais recentes demonstraram que não existem evidências científicas robustas que sustentem estes protocolos como estratégias ideais para a gestão de lesões agudas dos tecidos moles.
Em 2015, o próprio Dr. Gabe Mirkin reconheceu que, embora o gelo possa contribuir para a redução da dor quando aplicado logo após a lesão, pode também interferir com os processos naturais de regeneração tecidular. Em particular, a aplicação de gelo pode dificultar a migração das células responsáveis pela cicatrização para o local da lesão, potencialmente atrasando a recuperação.
Investigações recentes indicam que estratégias que visam reduzir de forma agressiva a inflamação, como o gelo ou a utilização de medicamentos anti-inflamatórios, podem interferir negativamente com o processo de recuperação, especialmente na fase aguda. A inflamação é hoje entendida como uma etapa essencial da reparação tecidular.
Do POLICE ao POLICE-CANAI
Neste enquadramento, surgiu o protocolo POLICE-CANAI, que representa uma evolução dos modelos anteriores. Mantém os princípios de proteção, carga otimizada, compressão e elevação, e acrescenta a atividade cardiovascular adequada (CA), através de exercício aeróbio sem dor, bem como a não utilização de anti-inflamatórios (NAI), reconhecendo o papel da inflamação como parte integrante do processo de cicatrização tecidular.
Ainda assim, estes modelos continuavam a não considerar de forma suficiente os fatores biológicos, psicológicos e emocionais, que desempenham um papel determinante na perceção da dor e no processo de recuperação, mesmo nas fases iniciais da lesão.
PEACE & LOVE: uma abordagem atual à lesão aguda
Perante estas limitações, foi proposto o protocolo PEACE & LOVE, desenvolvido pelos fisioterapeutas e investigadores canadianos Blaise Dubois e Jean-François Esculier. Esta abordagem defende uma recuperação ativa, dinâmica e informada, na qual a pessoa com a lesão assume um papel central no seu processo de recuperação.
O protocolo divide-se em duas fases complementares: PEACE, nos primeiros dias após a lesão, e LOVE, na fase subsequente.
A fase PEACE: os primeiros dias após a lesão
- Proteção: Evitar movimentos e atividades que aumentem significativamente a dor nos primeiros 1 a 3 dias. O repouso absoluto é desencorajado, uma vez que pode comprometer a qualidade e a resistência dos tecidos.
- Elevação: sempre que possível, elevar o membro lesionado acima do nível do coração para facilitar a drenagem de fluidos.
- Evitar anti-inflamatórios: Evitar estratégias anti-inflamatórias, como medicamentos anti-inflamatórios ou gelo, devido ao seu potencial impacto negativo nos processos de cicatrização.
- Compressão: Utilizar ligaduras ou bandas elásticas para ajudar a controlar o edema.
- Educação: Adotar uma abordagem ativa, com expectativas realistas relativamente ao tempo de recuperação, permitindo que os processos naturais do corpo desempenhem o seu papel.
A fase LOVE: apoiar a recuperação funcional
- Carga: Permitir que a dor oriente o regresso gradual às atividades. O aumento da carga deve ser progressivo e ajustado à tolerância individual.
- Otimismo: Reconhecer o papel do sistema nervoso central na recuperação. Fatores como medo, pessimismo ou catastrofização podem interferir negativamente com o processo de reabilitação.
- Vascularização: Incluir atividades cardiovasculares que não provoquem dor, favorecendo o aumento do fluxo sanguíneo para os tecidos em recuperação.
- Exercício: Promover a recuperação da mobilidade, da força e do controlo motor através de exercício adaptado à condição clínica.
Uma abordagem informada e individualizada
O conhecimento científico encontra-se em constante evolução, permitindo estratégias cada vez mais ajustadas à recuperação das lesões. O protocolo PEACE & LOVE valoriza os mecanismos naturais de adaptação do organismo e substitui a imobilização prolongada pelo movimento controlado e progressivo.
Importa salientar que, apesar de estas recomendações serem suportadas pela evidência científica, não substituem a avaliação individualizada por um Fisioterapeuta. Cada lesão apresenta características próprias, e nenhum protocolo deve ser aplicado de forma rígida ou indiscriminada.
Na Integrativa, a abordagem às lesões traumáticas agudas não se baseia na aplicação automática de protocolos, mas sim numa avaliação funcional cuidada e personalizada. Valorizamos os processos naturais de cicatrização, a recuperação funcional e a participação ativa da pessoa no seu processo de reabilitação, com o objetivo de apoiar um regresso seguro e progressivo à rotina diária.
David Brandão | Osteopath and Physiotherapist
Physiotherapist Card: 3652 | Order of Physiotherapists // Osteopath Card: C-0031697 | ACSS
Integrativa | Health and well-being as a lifestyle
















