O início do ano letivo pode trazer entusiasmo, mas também nervosismo, irritabilidade, dificuldades no sono ou queixas físicas. Nem todos estes sinais são preocupantes. O importante é perceber quando fazem parte da adaptação e quando começam a interferir de forma significativa na vida da criança.
Setembro muda o ritmo de muitas famílias. Regressam os horários, as manhãs mais apressadas, os trabalhos de casa, as atividades e a necessidade de voltar a organizar os dias em função da escola.
Para algumas crianças, esta mudança é recebida com entusiasmo. Para outras, os primeiros dias podem ser mais difíceis.
É frequente surgirem dúvidas entre os pais: será normal estar mais irritável? E as dores de barriga antes de sair de casa? E quando começa a dizer que não quer ir à escola?
Na maioria das vezes, algum desconforto faz parte do processo de adaptação.
Nem toda a ansiedade é um problema
Começar um novo ano letivo significa lidar com várias mudanças ao mesmo tempo.
Mesmo quando a escola é a mesma, podem mudar os professores, os colegas, as salas, os horários e aquilo que é esperado da criança.
É natural que exista alguma apreensão.
E, nas crianças, a ansiedade nem sempre se manifesta através de frases como “estou preocupado” ou “estou ansioso”.
Pode aparecer através do corpo e do comportamento: dificuldade em adormecer, dores de cabeça, dores de barriga, maior irritabilidade, necessidade de ficar mais perto dos pais ou resistência na hora de sair de casa.
Quando estes sinais são ligeiros e vão diminuindo à medida que os dias passam, tendem a fazer parte da adaptação à nova rotina.
Quando é preciso estar mais atento
Mais importante do que um comportamento isolado é perceber como ele evolui.
Há três aspetos que ajudam a distinguir uma reação passageira de uma dificuldade que merece maior atenção: a intensidade, a duração e a interferência na vida diária.
Uma criança pode estar mais nervosa durante os primeiros dias e, ainda assim, conseguir ir à escola, brincar, dormir e manter as suas atividades habituais.
É diferente quando o medo aumenta, se prolonga durante várias semanas ou começa a limitar aquilo que a criança consegue fazer.
Recusar sistematicamente a escola, dormir mal durante muito tempo, afastar-se dos amigos, apresentar queixas físicas frequentes ou viver as manhãs com grande sofrimento são sinais que merecem ser compreendidos com maior atenção.
A forma como os adultos respondem também conta
Perante a ansiedade de uma criança, é natural que os pais queiram tranquilizá-la imediatamente.
Mas ajudar nem sempre significa retirar o desconforto.
Muitas vezes, o mais importante é mostrar disponibilidade para ouvir e ajudar a criança a pôr em palavras aquilo que está a sentir.
Perguntas simples podem facilitar essa conversa: “Como correu o teu dia?”, “O que foi mais fácil?”, “Houve alguma coisa de que não gostaste?”
Nem sempre a criança vai responder logo. E não faz mal.
Mais do que insistir, importa criar um ambiente em que saiba que pode falar quando precisar.
Também é útil lembrar que o regresso às aulas não mexe apenas com as crianças. Os adultos também podem sentir maior pressão nesta altura.
Há horários para coordenar, deslocações, atividades, trabalho e muitas decisões práticas a acontecer ao mesmo tempo.
As crianças percebem essa tensão.
Por isso, a forma como os adultos lidam com as próprias preocupações pode influenciar a forma como elas vivem as suas.
É possível reconhecer alguma incerteza sem a transformar numa ameaça: “Também estamos a habituar-nos a esta nova rotina. Vamos perceber aos poucos como funciona melhor.”
Esta disponibilidade ajuda a criança a sentir que não precisa de ter tudo resolvido logo nos primeiros dias.
Ter alguma previsibilidade ajuda
Quando há muitas mudanças, saber o que vai acontecer a seguir pode trazer segurança.
Horários relativamente estáveis para acordar, comer, fazer os trabalhos, brincar e dormir ajudam a organizar o dia e a reduzir a sensação de imprevisibilidade.
Isso não significa criar uma rotina rígida.
Uma rotina útil é aquela que dá referências, mas continua a permitir ajustes quando o dia não corre exatamente como estava previsto.
Sempre que possível, pode ser positivo envolver a criança nessa organização. Escolher a roupa na noite anterior, preparar a mochila ou combinar antecipadamente alguns momentos do dia são pequenas formas de lhe dar maior participação e autonomia.
Telemóveis: não é apenas uma questão de tempo de ecrã
A presença dos telemóveis na vida das crianças e dos adolescentes tornou-se também uma questão importante no contexto escolar.
Limitar a utilização destes dispositivos durante o período de aulas pode ajudar a criar mais espaço para outras experiências que fazem parte do crescimento.
O recreio, por exemplo, não é apenas uma pausa entre aulas.
É um momento para conversar, brincar, movimentar-se, resolver pequenos conflitos, observar os outros e aprender a estar num grupo.
Quando grande parte desses momentos é ocupada pelo telemóvel, outras experiências podem acabar por ficar para trás.
A questão não passa, por isso, por tratar a tecnologia como algo negativo. Passa por ajudar crianças e adolescentes a aprender quando faz sentido usá-la e quando é importante conseguir desligar.
Esse processo não depende apenas das regras da escola.
Também se constrói em casa, através de limites consistentes, do exemplo dos adultos e de oportunidades para estar sem ecrãs sem que isso seja vivido como um castigo.
Aprender a tolerar algum aborrecimento, esperar, conversar sem interrupções ou escolher outra atividade são também competências que se treinam.
Quando procurar apoio psicológico
Quando a ansiedade se mantém, aumenta ou começa a limitar de forma clara a vida da criança, pode ser importante procurar ajuda.
A primeira questão não é apenas “como acabar com a ansiedade?”, mas perceber o que está a provocá-la.
A mesma frase “não quero ir à escola” pode ter significados muito diferentes.
Pode existir medo de ficar longe dos pais, dificuldades na aprendizagem, conflitos com colegas, receio de falhar, problemas de integração ou simplesmente uma necessidade maior de tempo para se adaptar.
Compreender o contexto faz diferença, porque diferentes causas exigem diferentes formas de intervenção.
Em acompanhamento psicológico, podem ser trabalhadas competências como reconhecer emoções, identificar aquilo que aumenta a ansiedade, encontrar formas de lidar com pensamentos mais assustadores, resolver problemas e enfrentar gradualmente situações que começaram a ser evitadas.
A forma de trabalhar deve ser sempre ajustada à idade, à personalidade e às necessidades de cada criança.
Os pais fazem parte do processo
Quando uma criança está ansiosa, envolver a família é muitas vezes uma parte importante do acompanhamento.
Aquilo que acontece fora da consulta tem um peso significativo.
Pequenas alterações na forma como os adultos respondem ao medo, à insegurança ou ao evitamento podem ajudar a criança a ganhar confiança e autonomia.
Nem sempre é fácil encontrar o equilíbrio entre proteger e deixar experimentar.
Por vezes, ajudar demasiado pode transmitir, sem intenção, a ideia de que a criança não consegue lidar com determinada situação. Por outro lado, pressionar em excesso pode aumentar ainda mais a ansiedade.
O objetivo é acompanhar sem fazer tudo pela criança e apoiar sem transformar cada dificuldade num sinal de alarme.
Quando necessário, também pode ser útil existir comunicação entre família, escola e profissionais que acompanham a criança, respeitando sempre a confidencialidade.
O objetivo não é eliminar a ansiedade
Ansiedade, medo e frustração fazem parte do desenvolvimento.
Por isso, o objetivo não é impedir que uma criança volte a sentir estas emoções.
É ajudá-la a perceber o que está a sentir, a descobrir formas de lidar com esse desconforto e a perceber que consegue continuar a avançar mesmo quando alguma ansiedade está presente.
É essa experiência, repetida ao longo do tempo, que ajuda a construir confiança.
Se o regresso às aulas está a ser particularmente difícil e a ansiedade começa a interferir com o bem-estar da criança ou da família, procurar apoio pode ajudar a perceber o que está por trás desse desconforto. Na Integrativa, o acompanhamento psicológico de crianças, adolescentes e adultos é pensado a partir da história, das necessidades e do contexto de cada pessoa.
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