O joelho é uma das articulações mais solicitadas durante a prática desportiva. Correr, saltar, travar, mudar de direção ou rodar sobre um pé apoiado no solo expõe as diferentes estruturas do joelho a forças consideráveis.
Quando a carga aplicada ultrapassa a capacidade dos músculos, tendões, ligamentos, meniscos ou restantes tecidos, pode ocorrer uma lesão. Noutros casos, os sintomas desenvolvem-se gradualmente, devido a um aumento excessivo da carga de treino, a recuperação insuficiente ou à repetição continuada dos mesmos movimentos.
As lesões desportivas no joelho podem afetar atletas profissionais, praticantes amadores e pessoas que iniciaram recentemente a prática de exercício físico. Reconhecer os sintomas e procurar uma avaliação adequada permite identificar os fatores envolvidos, definir uma estratégia clínica individualizada e reduzir o risco de persistência ou recorrência do problema.
Porque é que o joelho é vulnerável durante o desporto?
O joelho estabelece a ligação entre o fémur, a tíbia e a rótula. A sua estabilidade depende da ação coordenada de várias estruturas:
- Ligamentos, que limitam movimentos excessivos e contribuem para a estabilidade articular
- Meniscos, que distribuem a carga, absorvem parte do impacto e participam na estabilidade do joelho
- Cartilagem articular, que facilita o movimento entre as superfícies ósseas
- Tendões, que transmitem a força produzida pelos músculos
- Músculos da coxa, perna, anca e tronco, que controlam dinamicamente o movimento
Esta articulação permite sobretudo movimentos de flexão e extensão, mas apresenta também uma componente de rotação. Modalidades que envolvem corrida, saltos, contacto físico, desacelerações ou mudanças rápidas de direção aumentam a exigência mecânica sobre estas estruturas.
Uma lesão pode ocorrer durante um único movimento traumático ou desenvolver-se progressivamente quando a exposição repetida à carga ultrapassa a capacidade de adaptação dos tecidos.
Lesões desportivas mais frequentes no joelho
Lesão do ligamento cruzado anterior
O ligamento cruzado anterior, habitualmente designado por LCA, desempenha um papel relevante no controlo da estabilidade do joelho, sobretudo durante movimentos de rotação, desaceleração e mudança de direção.
A lesão ocorre frequentemente durante uma mudança rápida de direção, uma desaceleração ou uma aterragem, muitas vezes sem contacto direto com outro jogador. A pessoa pode sentir ou ouvir um estalido, seguido de dor, aumento rápido do volume do joelho e sensação de instabilidade ou cedência.
Nem todas as lesões do LCA apresentam obrigatoriamente indicação cirúrgica. A decisão depende de fatores como:
• Grau de instabilidade
• Presença de lesões associadas
• Exigências da modalidade desportiva
• Objetivos e necessidades funcionais da pessoa
• Resposta ao processo de reabilitação
Nos casos em que é realizada cirurgia, o regresso a modalidades com mudanças de direção deve ser progressivo e sustentado por critérios funcionais. O tempo decorrido desde o procedimento é relevante, mas não deve constituir o único critério de decisão.
Lesões dos meniscos
Os meniscos são duas estruturas fibrocartilaginosas localizadas entre o fémur e a tíbia. Contribuem para distribuir a carga, absorver impacto e estabilizar o joelho.
Uma lesão meniscal traumática pode ocorrer quando o joelho roda enquanto o pé permanece apoiado no solo. Em pessoas mais velhas, as alterações meniscais podem desenvolver-se gradualmente e estar associadas a processos degenerativos.
Os sintomas podem incluir:
- Dor na região interna ou externa do joelho
- Inchaço
- Dor ao agachar ou realizar movimentos de rotação
- Sensação de ressalto ou clique articular
- Dificuldade em estender completamente o joelho
- Bloqueio articular
A abordagem pode ser conservadora ou cirúrgica. A decisão depende do tipo e da localização da lesão, da presença de bloqueio articular, da intensidade e duração dos sintomas e das necessidades funcionais da pessoa.
Após uma cirurgia meniscal, o regresso ao desporto deve considerar simultaneamente o tempo necessário para a cicatrização biológica e a recuperação da mobilidade, força, controlo motor e tolerância à carga.
Tendinopatia rotuliana
A tendinopatia rotuliana, também conhecida como joelho do saltador, é uma condição associada à sobrecarga do tendão que liga a rótula à tíbia.
É mais frequente em modalidades com saltos repetidos, corrida, acelerações e desacelerações, como o basquetebol, o voleibol e determinadas disciplinas do atletismo.
A dor localiza-se habitualmente abaixo da rótula e pode aumentar durante atividades como:
- Saltar
- Correr
- Subir ou descer escadas
- Agachar
- Permanecer sentado durante períodos prolongados
A abordagem é maioritariamente conservadora e baseia-se na gestão da carga e num programa progressivo de exercício.
Atualmente, a intervenção não se limita ao exercício excêntrico. A intensidade da carga, a velocidade do movimento, o tipo de contração muscular e a frequência do exercício devem ser ajustados à fase da condição, à capacidade do tendão e à resposta individual.
Síndrome da dor patelofemoral
A síndrome da dor patelofemoral caracteriza-se por dor na região anterior do joelho ou em redor da rótula. É frequente em corredores, ciclistas e pessoas que realizam atividades repetidas com o joelho em flexão.
A dor pode surgir ou agravar-se ao:
- Correr
- Subir ou descer escadas
- Agachar
- Saltar
- Permanecer sentado com os joelhos fletidos
- Aumentar repentinamente o volume ou a intensidade do treino
A abordagem deve considerar a carga de treino, a força do joelho e da anca, a mobilidade, o controlo do movimento e as características individuais da pessoa.
O exercício terapêutico, a educação e a gestão adequada da exposição à carga são componentes centrais da intervenção clínica.
Entorses e lesões dos ligamentos colaterais
As entorses resultam do estiramento ou da rotura parcial ou completa de um ligamento.
O ligamento colateral medial, localizado na região interna do joelho, é frequentemente afetado por impactos que deslocam o joelho para dentro. Dependendo da intensidade do mecanismo, podem surgir dor localizada, edema, dificuldade em apoiar o membro e sensação de instabilidade.
As entorses ligeiras e moderadas são frequentemente acompanhadas sem necessidade de cirurgia. Lesões mais extensas ou associadas a alterações noutras estruturas requerem avaliação médica e um plano de reabilitação específico.
Principais causas e fatores associados às lesões no joelho
As lesões desportivas no joelho não apresentam uma única causa. Habitualmente, resultam da interação entre as exigências da atividade, a capacidade física da pessoa, a exposição à carga e o contexto em que o movimento ocorre.
Mudanças rápidas de direção
Movimentos de rotação, travagem e mudança de direção podem expor os ligamentos e os meniscos a forças elevadas, sobretudo quando o pé permanece fixo no solo.
O risco depende também da velocidade do movimento, da posição do tronco e do membro inferior, do nível de fadiga e da capacidade de produzir e absorver força.
Aumento excessivo da carga de treino
Um aumento rápido da distância, intensidade, frequência, duração das sessões ou número de competições pode não permitir que os tecidos se adaptem adequadamente.
Este padrão pode contribuir para o desenvolvimento de condições associadas à sobrecarga, como a tendinopatia rotuliana e a dor patelofemoral.
A carga deve ser analisada de forma individual, considerando o historial de treino, a capacidade física atual, o sono, a recuperação e as restantes atividades realizadas ao longo da semana.
Défices de força e controlo motor
A força do quadricípite, dos isquiotibiais, dos gémeos e dos músculos da anca contribui para controlar o joelho durante a corrida, o salto, a aterragem e a mudança de direção.
Défices nestas áreas não significam que uma lesão ocorrerá necessariamente. No entanto, podem ser relevantes quando associados a outros fatores, como fadiga, aumento súbito da carga, alterações de mobilidade ou exposição frequente a movimentos exigentes.
Fadiga e recuperação insuficiente
Com o aumento da fadiga, a qualidade e a precisão do movimento podem diminuir. A pessoa pode perder capacidade para controlar a aterragem, a desaceleração ou o alinhamento do membro inferior.
O sono, os períodos de recuperação e a distribuição da carga ao longo da semana são componentes importantes da preparação física e da redução do risco de lesão.
Técnica desportiva
A forma como a pessoa corre, aterra, trava ou muda de direção deve ser analisada no contexto da modalidade, da velocidade do movimento e das suas características individuais.
Não existe um único padrão de movimento universalmente ideal. No entanto, determinadas estratégias podem aumentar a carga sobre estruturas específicas e justificar adaptações técnicas ou programas de preparação direcionados.
Sintomas de uma lesão desportiva no joelho
Os sintomas dependem da estrutura afetada, do mecanismo da lesão e da sua gravidade. Os mais frequentes incluem:
- Dor localizada ou difusa
- Inchaço
- Rigidez
- Perda de mobilidade
- Dificuldade em apoiar o peso corporal
- Sensação de instabilidade ou cedência
- Estalidos acompanhados de dor
- Bloqueio do joelho
- Perda de força
- Dificuldade em correr, saltar, travar ou mudar de direção
Um estalido isolado, sem dor, inchaço ou perda de função, nem sempre indica a presença de uma lesão. Pelo contrário, um estalido associado a dor intensa, edema rápido ou instabilidade deve ser clinicamente avaliado.
Quando procurar avaliação médica urgente?
Deve procurar avaliação médica urgente quando existe:
- Deformidade visível após uma queda ou impacto
- Incapacidade de apoiar o pé no solo
- Inchaço rápido e significativo
- Bloqueio que impede a extensão do joelho
- Dor intensa após um traumatismo
- Perda de sensibilidade no membro inferior
- Alterações da temperatura, coloração ou circulação do pé
- Joelho muito quente, vermelho e acompanhado de febre
Mesmo sem sinais de urgência, é aconselhável procurar um profissional de saúde quando os sintomas persistem, se agravam ou impedem a participação normal no treino, na competição ou nas atividades diárias.
Como é realizada a avaliação clínica?
A avaliação começa pela recolha da história clínica e pela análise do mecanismo da lesão. É importante compreender:
- Como ocorreu o episódio
- Se existiu contacto, rotação, queda ou impacto
- Quando surgiu o inchaço
- Onde se localiza a dor
- Que movimentos agravam os sintomas
- Se existe instabilidade ou bloqueio
- Qual a modalidade praticada
- Qual a carga habitual de treino
- Se existem lesões anteriores no joelho ou no membro inferior
Segue-se a avaliação da mobilidade, força, estabilidade, controlo motor, capacidade funcional e tolerância à carga.
Podem ser realizados testes clínicos específicos para os ligamentos, meniscos, tendões e outras estruturas. Estes testes ajudam a orientar o diagnóstico, mas devem ser interpretados em conjunto com a história clínica e os restantes dados recolhidos.
Quando necessário, podem ser solicitados exames complementares:
- Radiografia, sobretudo quando existe suspeita de fratura ou alteração óssea
- Ressonância magnética, para avaliar meniscos, ligamentos, cartilagem e outras estruturas internas
- Ecografia, particularmente útil na avaliação de tendões e estruturas superficiais
Nem todas as dores no joelho exigem exames de imagem. Em muitas situações, a avaliação clínica permite iniciar uma abordagem segura e adequada.
As alterações identificadas nos exames devem ser relacionadas com os sintomas e com a função da pessoa, uma vez que algumas alterações estruturais podem estar presentes sem provocarem dor ou limitação.
Abordagem clínica das lesões desportivas no joelho
A estratégia clínica depende da estrutura afetada, da gravidade da lesão, da idade, dos objetivos pessoais e das exigências da modalidade desportiva.
Abordagem conservadora
Muitas lesões podem ser acompanhadas de forma conservadora, incluindo:
- Algumas entorses ligamentares
- Tendinopatias
- Dor patelofemoral
- Determinadas lesões meniscais
- Alguns casos de lesão do LCA
Uma abordagem conservadora não corresponde apenas a repouso. Habitualmente, inclui educação, gestão da carga, recuperação da mobilidade, exercício terapêutico, fortalecimento progressivo e reintrodução gradual das atividades.
O repouso absoluto prolongado raramente é necessário e pode contribuir para perda de força, capacidade física e confiança no movimento.
Abordagem cirúrgica
A cirurgia pode ser considerada quando existe instabilidade funcional incapacitante, bloqueio articular persistente, determinadas roturas estruturais ou ausência de evolução clínica satisfatória com uma abordagem conservadora adequadamente conduzida.
A decisão deve ser individualizada e ponderar os potenciais benefícios, limitações, riscos, objetivos da pessoa e exigências desportivas.
Mesmo quando existe indicação cirúrgica, a fisioterapia pode desempenhar um papel importante antes e depois do procedimento.
O papel da fisioterapia na recuperação
A intervenção em fisioterapia deve ser adaptada à lesão, à fase de recuperação, à capacidade física da pessoa e às exigências da modalidade praticada.
Controlo inicial dos sintomas
Nos primeiros dias, os objetivos podem incluir proteger a estrutura lesionada, gerir o edema, preservar o movimento possível e reduzir atividades que agravem significativamente os sintomas.
O modelo PEACE & LOVE propõe uma abordagem que associa proteção e educação na fase inicial a carga progressiva, exercício, condicionamento cardiovascular e recuperação da confiança no movimento ao longo da reabilitação.
A aplicação deste modelo deve ser ajustada ao tipo de lesão e à resposta clínica individual.
Recuperação da mobilidade
A rigidez e o inchaço podem limitar a flexão ou a extensão do joelho. A recuperação progressiva da amplitude de movimento é relevante para caminhar, subir escadas, agachar e voltar a correr.
A extensão completa do joelho merece atenção particular em várias lesões, uma vez que a sua limitação pode alterar a marcha e dificultar a ativação adequada do quadricípite.
Fortalecimento progressivo
O programa de exercício pode envolver:
- Quadricípite
- Isquiotibiais
- Gémeos
- Músculos da anca
- Musculatura do tronco
- Exercícios globais do membro inferior
A carga deve evoluir de acordo com a capacidade, os sintomas e a resposta da pessoa nas horas e dias seguintes ao exercício.
O fortalecimento pode incluir diferentes tipos de contração muscular, amplitudes de movimento, velocidades e níveis de resistência.
Equilíbrio e controlo neuromuscular
O treino de equilíbrio, proprioceção, aterragem, desaceleração e mudança de direção pode contribuir para recuperar o controlo do joelho em situações específicas do desporto.
Estes exercícios devem evoluir progressivamente de tarefas previsíveis e controladas para situações mais rápidas, complexas e próximas das exigências reais da modalidade.
Treino específico da modalidade
Na fase final da reabilitação, são introduzidos gestos progressivamente mais próximos das exigências do treino e da competição, como:
- Corrida
- Aceleração
- Desaceleração
- Saltos
- Aterragens
- Mudanças de direção
- Contacto físico, quando aplicável
- Tarefas executadas em situação de fadiga
A progressão deve considerar não apenas a execução isolada dos movimentos, mas também a capacidade de os repetir com qualidade e tolerância adequada.
Quando é seguro regressar ao desporto?
A ausência de dor não significa necessariamente que a recuperação esteja completa.
O regresso ao desporto deve considerar diferentes critérios:
- Ausência ou controlo adequado do edema
- Mobilidade completa ou suficiente para a modalidade
- Força compatível com as exigências desportivas
- Capacidade para correr, saltar, travar e mudar de direção
- Qualidade e controlo do movimento
- Tolerância ao volume e à intensidade do treino
- Confiança no joelho
- Ausência de medo significativo do movimento
- Capacidade para executar tarefas específicas da modalidade
A comparação entre os dois membros pode ser útil, mas não deve ser utilizada isoladamente. Uma simetria aparentemente adequada pode esconder perda de capacidade em ambos os membros ou diferenças na forma como a força é produzida e absorvida.
O regresso deve ser progressivo. Habitualmente, a pessoa começa por atividades individuais e controladas, evolui para treino condicionado, participa posteriormente no treino completo e só depois regressa à competição.
O regresso à participação, o regresso ao desporto e o regresso ao desempenho correspondem a fases distintas. A presença em treino ou competição não significa necessariamente que o atleta já recuperou o nível de desempenho anterior à lesão.
Como reduzir o risco de lesões no joelho?
Nem todas as lesões podem ser evitadas. No entanto, algumas estratégias podem contribuir para reduzir o risco e melhorar a preparação para as exigências do desporto:
- Aumentar a carga de treino de forma progressiva
- Manter um programa regular de força
- Treinar saltos, aterragens, travagens e mudanças de direção
- Realizar um aquecimento estruturado
- Respeitar períodos adequados de descanso e recuperação
- Monitorizar dor, fadiga e alterações de desempenho
- Avaliar limitações relevantes de força, mobilidade ou controlo motor
- Adequar o treino à modalidade, à idade e ao nível de experiência
- Manter o trabalho preventivo após o regresso ao desporto
A prevenção deve ser específica para a pessoa, para a modalidade praticada e para o seu historial clínico e desportivo.
Programas estruturados que integrem força, equilíbrio, controlo neuromuscular, corrida, saltos e mudanças de direção podem contribuir para reduzir a incidência de algumas lesões, sobretudo quando realizados de forma regular e com progressão adequada.
Compreender a recuperação do joelho numa perspetiva integrativa
Uma lesão desportiva não deve ser abordada apenas com o objetivo de reduzir a dor. É necessário compreender o mecanismo da lesão, identificar os fatores que podem ter contribuído para o problema, recuperar a capacidade física e preparar novamente o corpo para as exigências reais do treino e da competição.
Uma perspetiva integrada pode considerar:
- Estrutura lesionada e respetivo processo biológico
- Mobilidade, força e capacidade de produzir e absorver carga
- Controlo motor e exigências técnicas da modalidade
- Volume, intensidade e distribuição do treino
- Sono e recuperação
- Historial de lesões
- Confiança e perceção de segurança durante o movimento
- Objetivos pessoais e desportivos
A avaliação individualizada permite enquadrar estes fatores e definir uma progressão compatível com a condição clínica e com as exigências da pessoa.
A fisioterapia desportiva pode integrar exercício terapêutico, terapia manual, treino funcional, educação e estratégias de prevenção. A seleção destas intervenções deve basear-se na avaliação clínica, na evolução funcional e na resposta individual.
A presença de dor, inchaço, instabilidade, bloqueio ou limitação persistente do joelho justifica uma avaliação por um profissional de saúde qualificado.
David Brandão | Osteopath and Physiotherapist
Physiotherapist Card: 3652 | Order of Physiotherapists // Osteopath Card: C-0031697 | ACSS
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