A doença de Parkinson é uma doença neurológica progressiva que pode afetar o movimento, o equilíbrio, a marcha, a força muscular e a autonomia. Embora a medicação desempenhe um papel fundamental no controlo dos sintomas, o exercício terapêutico constitui uma componente essencial da abordagem não farmacológica da doença.
A evidência científica atual indica que a prática regular e adequada de exercício pode contribuir para melhorar a função motora, a marcha, o equilíbrio, a capacidade física e a qualidade de vida. As recomendações internacionais da Parkinson’s Foundation e do American College of Sports Medicine salientam a importância de integrar diferentes componentes do exercício, nomeadamente atividade aeróbia, treino de força, flexibilidade e treino de equilíbrio, agilidade e dupla tarefa.
O que é a doença de Parkinson?
A doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa que afeta progressivamente diferentes circuitos do sistema nervoso. Uma das alterações mais conhecidas é a perda de neurónios produtores de dopamina em determinadas regiões do cérebro, o que interfere com os circuitos envolvidos no controlo do movimento.
Entre os sintomas motores mais frequentes encontram-se:
- Tremor de repouso;
- Rigidez muscular;
- Bradicinesia, ou lentidão dos movimentos;
- Alterações posturais;
- Dificuldade em iniciar determinados movimentos;
- Alterações da marcha;
- Diminuição do comprimento do passo;
- Alterações do equilíbrio;
- Dificuldade nas mudanças de direção;
- Episódios de freezing, ou bloqueio da marcha.
A doença de Parkinson também pode estar associada a manifestações não motoras, como fadiga, alterações do sono, obstipação, alterações do humor e alterações cognitivas. A combinação destes sintomas pode ter um impacto significativo na autonomia e na participação nas atividades quotidianas.
À medida que o movimento se torna mais difícil, algumas pessoas reduzem naturalmente a sua atividade física. O receio de cair, a fadiga ou a dificuldade em executar determinadas tarefas podem levar a passar mais tempo sentadas ou inativas.
Esta redução da atividade pode contribuir para um ciclo de descondicionamento físico: a diminuição do movimento favorece a perda de força, resistência e confiança, o que pode tornar a realização das atividades quotidianas progressivamente mais exigente. É neste contexto que o exercício terapêutico assume particular importância.
Porque é que o exercício é importante na doença de Parkinson?
O exercício não elimina a doença de Parkinson nem substitui a medicação ou outras intervenções recomendadas pela equipa de saúde. No entanto, existe evidência científica que sustenta a inclusão de exercício regular na abordagem desta condição.
Estudos e revisões sistemáticas indicam que diferentes modalidades de exercício podem contribuir para melhorar a função motora, a capacidade física e a qualidade de vida, embora os benefícios variem consoante a intervenção, as características individuais e a fase da doença.
O objetivo não consiste simplesmente em aumentar a quantidade de exercício realizado. É importante selecionar o tipo de atividade, a intensidade, a frequência e a progressão mais adequados a cada pessoa, considerando os sintomas, a capacidade física, a fase da doença, a medicação e os objetivos individuais.
Um programa de exercício estruturado pode ajudar a preservar capacidades importantes, manter a participação nas atividades quotidianas e apoiar a autonomia ao longo da evolução da doença.
Quais são os principais benefícios do exercício terapêutico na doença de Parkinson?
Melhorar a mobilidade e a capacidade funcional
Um dos objetivos centrais da fisioterapia na doença de Parkinson é preservar a capacidade de realizar as atividades do quotidiano.
O exercício pode ser orientado para tarefas concretas, como levantar-se e sentar-se, caminhar, subir e descer escadas, mudar de direção, entrar e sair da cama, realizar transferências, alcançar e transportar objetos ou executar tarefas domésticas.
A intervenção procura facilitar a transferência das capacidades desenvolvidas durante o exercício para situações reais do dia a dia. Por esse motivo, para além de trabalhar movimentos isolados, é importante integrar tarefas funcionais que correspondam às necessidades e aos objetivos de cada pessoa.
Melhorar a marcha
As alterações da marcha são frequentes na doença de Parkinson e podem evoluir ao longo do tempo. Podem incluir passos mais curtos, redução da velocidade, dificuldade em iniciar a marcha, alterações da cadência, dificuldade em mudar de direção e episódios de freezing.
A fisioterapia pode incluir treino específico da marcha, com exercícios dirigidos ao comprimento e à amplitude do passo, à velocidade, à cadência, ao arranque e à paragem, às mudanças de direção e à ultrapassagem de obstáculos.
Também podem ser trabalhadas estratégias para caminhar em diferentes superfícies e lidar com episódios de bloqueio da marcha. Em determinadas situações, a utilização de estímulos externos, como referências visuais ou sinais auditivos, pode ajudar a facilitar a execução dos movimentos.
A escolha das estratégias depende das características clínicas, das dificuldades funcionais e das necessidades de cada pessoa.
Melhorar o equilíbrio e reduzir o risco de queda
As alterações do equilíbrio podem aumentar o risco de queda e comprometer a autonomia. Para além das possíveis consequências físicas, uma queda pode desencadear medo de voltar a cair, levando à evitação de determinadas atividades e a uma redução adicional da participação física.
O treino de equilíbrio constitui, por isso, uma componente importante do exercício na doença de Parkinson. De acordo com a capacidade funcional e o nível de segurança de cada pessoa, pode incluir:
- Estabilidade postural;
- Transferências de peso;
- Controlo do centro de massa;
- Mudanças de direção;
- Deslocações em diferentes direções;
- Treino das reações de equilíbrio;
- Apoio unipodal, quando adequado e seguro;
- Transposição de obstáculos;
- Movimentos de grande amplitude;
- Tarefas funcionais;
- Treino de agilidade;
- Exercícios que envolvam dupla tarefa.
As recomendações atuais salientam a importância de praticar o equilíbrio, a agilidade e a realização simultânea de tarefas motoras e cognitivas de forma regular, integrando estas competências nas atividades quotidianas sempre que possível e em condições adequadas de segurança.
Aumentar e preservar a força muscular
A redução da atividade física pode contribuir para a perda de força muscular e de capacidade física. O treino de força permite trabalhar os principais grupos musculares e pode facilitar tarefas funcionais, como levantar-se de uma cadeira, caminhar, subir escadas, manter a postura, transportar objetos e realizar atividades domésticas.
As recomendações internacionais incluem habitualmente o treino de força duas a três vezes por semana, em dias não consecutivos, com progressão gradual da resistência e adaptação à capacidade individual.
A seleção e a execução dos exercícios devem considerar a presença de rigidez, alterações posturais, dor, osteoporose, dificuldades de equilíbrio ou outras condições clínicas associadas. Estas características podem exigir adaptações para assegurar uma prática adequada e segura.
Melhorar a capacidade cardiovascular
O exercício aeróbio é outro dos componentes importantes de um programa de exercício para pessoas com doença de Parkinson.
Consoante a condição física e as características individuais, podem ser utilizadas atividades como caminhada a ritmo acelerado, bicicleta estática, ciclismo, passadeira, dança, natação ou exercício aeróbio intervalado.
Para além dos benefícios associados à saúde cardiovascular, o aumento da resistência física pode tornar as atividades quotidianas menos exigentes. Uma melhor capacidade de esforço pode facilitar a realização de tarefas durante períodos mais prolongados e contribuir para a manutenção de um estilo de vida ativo.
A intensidade e a duração do exercício devem ser ajustadas à capacidade funcional, às condições de saúde e à tolerância individual.
Preservar a mobilidade e a flexibilidade
A rigidez muscular e determinadas alterações posturais podem contribuir para a redução da amplitude dos movimentos. Por esse motivo, o exercício pode incluir trabalho de mobilidade articular, amplitude de movimento e flexibilidade, com especial atenção às necessidades funcionais de cada pessoa.
Entre os movimentos que podem ser integrados no programa encontram-se a extensão e a rotação do tronco, os movimentos amplos dos membros superiores, a mobilidade das ancas e dos tornozelos e os exercícios funcionais de alcance.
O objetivo não consiste apenas em aumentar a flexibilidade, mas também em preservar a capacidade de executar movimentos necessários no quotidiano, como vestir-se, alcançar objetos, rodar o tronco ou caminhar.
As recomendações de exercício incluem frequentemente sessões de flexibilidade duas a três vezes por semana, podendo a prática mais frequente ser útil quando adequada às necessidades individuais.
Contribuir para a melhoria da qualidade de vida
Os benefícios do exercício não se limitam aos sintomas motores. A atividade física pode contribuir para melhorar a capacidade funcional, o bem-estar e alguns sintomas não motores associados à doença de Parkinson.
A investigação aponta para possíveis benefícios em dimensões como o humor, a obstipação e a função cognitiva, para além dos efeitos na mobilidade, força e equilíbrio. A magnitude destes benefícios pode variar e depende de vários fatores, incluindo a modalidade de exercício e as características clínicas de cada pessoa.
O contexto em que a atividade é realizada também pode ser relevante. Para algumas pessoas, a participação em atividades de grupo proporciona oportunidades de interação social, favorece a manutenção de uma rotina de exercício e pode contribuir para a motivação.
Preservar a autonomia
Um dos objetivos da reabilitação na doença de Parkinson é apoiar a manutenção da independência nas atividades quotidianas durante o maior tempo possível.
A força, o equilíbrio, a mobilidade, a resistência, a coordenação e a capacidade de realizar tarefas funcionais estão interligados e devem ser considerados de forma integrada.
Na vida quotidiana, estas capacidades são utilizadas em simultâneo. Por isso, um programa de exercício pode ser orientado para objetivos concretos e significativos para cada pessoa, como deslocar-se em casa com maior segurança, preparar refeições, realizar tarefas domésticas ou participar em atividades sociais.
Esta ligação entre o exercício e as exigências reais do dia a dia permite orientar a intervenção para a funcionalidade e a autonomia.
Aumentar a confiança no movimento
Quando determinados movimentos se tornam mais difíceis, é natural que surja receio de cair ou de não conseguir executar uma tarefa em segurança. Este receio pode limitar a atividade física e reduzir a participação em situações quotidianas.
O exercício terapêutico permite praticar movimentos num ambiente controlado, com progressão ajustada à capacidade individual e supervisão do fisioterapeuta sempre que necessária.
À medida que a pessoa desenvolve a capacidade para realizar determinadas tarefas, pode também aumentar a confiança na sua execução no quotidiano. Esta confiança não implica ignorar as limitações existentes, mas reconhecer os desafios e desenvolver estratégias para lidar com eles de forma mais segura.
O que é a dupla tarefa e porque é importante na doença de Parkinson?
Grande parte das atividades quotidianas exige a realização de mais do que uma tarefa em simultâneo. Caminhar enquanto se conversa, transportar um saco enquanto se procuram as chaves ou atravessar a rua enquanto se presta atenção ao trânsito são exemplos de situações que envolvem dupla tarefa.
Este conceito refere-se à execução simultânea de duas tarefas, que podem envolver componentes motoras, cognitivas ou ambas.
Na doença de Parkinson, a realização simultânea de diferentes tarefas pode tornar-se mais difícil e aumentar as exigências colocadas à marcha e ao equilíbrio. Por exemplo, conversar enquanto se caminha pode interferir com a velocidade da marcha ou com a capacidade de manter uma trajetória estável.
O treino pode, por isso, evoluir progressivamente para situações que combinem movimento com uma segunda tarefa, respeitando a capacidade funcional e a segurança da pessoa. A complexidade deve ser ajustada de forma individualizada, sobretudo quando existem alterações do equilíbrio ou episódios de bloqueio da marcha.
O treino de equilíbrio, agilidade e dupla tarefa integra as principais componentes das recomendações internacionais de exercício para a doença de Parkinson.
É seguro fazer exercício com a doença de Parkinson?
Na maioria das pessoas, o exercício pode ser realizado de forma segura quando é selecionado e adaptado às características clínicas e funcionais individuais. No entanto, a doença de Parkinson pode estar associada a alterações do equilíbrio, episódios de freezing, hipotensão, alterações cognitivas, fadiga ou outras condições que devem ser consideradas no planeamento da atividade física.
A avaliação funcional permite identificar limitações, estimar o risco de queda e determinar as adaptações necessárias. A escolha dos exercícios deve também considerar a medicação, a fase da doença, a capacidade de compreender instruções e a resposta ao esforço.
Em determinadas situações, pode ser necessária supervisão profissional, nomeadamente quando existe risco elevado de queda, dificuldade significativa na marcha ou outra limitação relevante. Nesses casos, não é aconselhável iniciar exercícios potencialmente perigosos sem uma avaliação prévia por um profissional de saúde com experiência na área.
A segurança não depende apenas da escolha dos exercícios. Também é importante considerar o ambiente, o apoio disponível, a progressão da intensidade e a capacidade de executar os movimentos com controlo adequado.
Compreender o exercício terapêutico na doença de Parkinson numa perspetiva integrativa
A doença de Parkinson é progressiva, mas o diagnóstico não significa que a pessoa tenha de abandonar o movimento ou deixar de participar nas atividades que contribuem para a sua qualidade de vida. A evidência científica atual reforça a importância de integrar exercício regular e adaptado na abordagem da doença.
Não existe um único programa de exercício adequado a todas as pessoas com Parkinson. A intervenção deve ser ajustada às capacidades, aos sintomas, às necessidades e aos objetivos individuais, podendo ser modificada à medida que a condição evolui.
Um programa estruturado pode combinar exercício aeróbio, treino de força, mobilidade e flexibilidade, treino de equilíbrio, treino da marcha, agilidade, dupla tarefa e exercícios funcionais. A seleção destas componentes deve ter em conta a avaliação clínica e a sua relevância para as atividades quotidianas.
Mais do que executar exercícios isolados, importa desenvolver capacidades que possam ser utilizadas nas situações reais do dia a dia. Preservar a autonomia significa, neste contexto, manter a capacidade de realizar atividades significativas, participar na vida social e gerir as exigências quotidianas de acordo com as possibilidades de cada pessoa.
Na Integrativa, a fisioterapia é orientada por uma avaliação individualizada e pela definição de planos de reabilitação ajustados às necessidades, capacidades e objetivos de cada pessoa.
Na doença de Parkinson, o exercício terapêutico é integrado numa abordagem centrada na função, no movimento e na autonomia, procurando desenvolver competências que possam ser aplicadas nas atividades quotidianas.
Quando existem alterações da marcha, do equilíbrio, da força ou da mobilidade, uma avaliação por um fisioterapeuta com experiência em reabilitação neurológica pode ajudar a identificar as necessidades funcionais e a definir um programa de exercício adequado à condição clínica.
Manter-se em movimento não significa simplesmente fazer mais exercício. Significa desenvolver formas de movimento adaptadas, seguras e consistentes, que apoiem a funcionalidade e a autonomia ao longo das diferentes fases da doença de Parkinson.
Rita Xarepe | Fisioterapeuta e Instrutora de Pilates Clínico pela APPI
Cédula Fisioterapeuta: 4209 | Ordem dos Fisioterapeutas
Integrativa | A saúde e o bem-estar como um estilo de vida















