Ao longo da vida, somos constantemente chamados a escolher: caminhos profissionais, relações, rotinas, prioridades. No entanto, para muitas pessoas, a ideia de escolher vem acompanhada de medo, culpa ou da sensação de que uma decisão errada pode comprometer tudo o que vem a seguir.
É frequente ouvir em consulta frases como “se mudar agora, estou a deitar tudo a perder” ou “se escolhi isto, tenho de aguentar”. Estas ideias revelam uma confusão comum: a de que decidir é o mesmo que sentenciar. Mas não são a mesma coisa.
Uma decisão é um ato feito num determinado momento, com a informação disponível, os recursos emocionais existentes e as circunstâncias que estão presentes nessa fase da vida. Uma sentença, pelo contrário, é definitiva, rígida e não admite revisão.
Quando tratamos decisões como sentenças, retiramos a nós próprios a capacidade de adaptação e de crescimento. Passamos a acreditar que escolher implica ficar preso, mesmo quando a nossa realidade interna já mudou. Esta rigidez tende a aumentar a ansiedade, o evitamento e a sensação de aprisionamento. Escolher é, muitas vezes, apenas dar um passo, não definir o caminho inteiro.
Uma das crenças centrais mais frequentes associadas à dificuldade em mudar é a ideia de que “se mudo, é porque falhei”. Na lógica da Terapia Cognitivo-Comportamental, esta crença funciona como um filtro rígido através do qual tudo o que envolve reajuste passa a ser interpretado como incapacidade, incoerência ou fraqueza. No entanto, mudar de rumo não invalida o percurso feito; pelo contrário, integra-o.
Mudar pode significar que se aprendeu mais sobre si, que se reconheceram limites que antes não eram visíveis ou que se ajustaram expectativas à realidade atual. Persistir apenas para não “falhar” pode, paradoxalmente, afastar-nos do bem-estar e da coerência pessoal. Flexibilidade psicológica não é desistência; é autorregulação.
O medo de mudar raramente está ligado apenas à mudança em si. Está, muitas vezes, associado aos pensamentos automáticos que surgem quando a possibilidade de escolha aparece: “vou arrepender-me”, “os outros vão achar que não sou consistente”, “e se for tarde demais?”. Estes pensamentos não surgem como hipóteses a considerar, mas como verdades absolutas, e é precisamente aqui que o trabalho cognitivo se torna essencial.
Escolher não encerra possibilidades, reorganiza-as. Nem todas as decisões precisam de ser definitivas para serem válidas. Algumas existem apenas para nos aproximar de nós próprios num determinado momento da vida.
Se sente que está num impasse, pode ser útil explorar estas questões em acompanhamento psicológico, num espaço seguro onde as escolhas não são julgadas, mas compreendidas. Porque escolher não é o fim do caminho. É, muitas vezes, a forma de continuar a andar.
Madalena Raposo | Psicóloga
Cédula Fisioterapeuta: 30344 | Ordem dos Psicólogos
Integrativa | A saúde e o bem-estar como um estilo de vida













