O golfe é frequentemente associado a um desporto tranquilo, praticado ao ar livre, ao ritmo de cada jogador e sem contacto físico. No entanto, o swing é um gesto tecnicamente exigente, que envolve uma sequência coordenada de movimentos e solicita diferentes estruturas do corpo. Em pouco mais de um segundo, o tronco roda, desacelera e transfere para o taco a força gerada pelos membros inferiores.
Quando repetido centenas de vezes ao longo de uma semana, entre sessões de treino e voltas no campo, este movimento pode contribuir para o aparecimento de lesões, sobretudo por sobrecarga e exposição repetida, embora também possam ocorrer lesões associadas a episódios isolados. Compreender os mecanismos envolvidos é um passo importante para adoptar estratégias de prevenção ajustadas às características de cada jogador.
Porque surgem as lesões no golfe?
A maioria das lesões associadas ao golfe está relacionada com a repetição do swing, o volume de prática e a capacidade de adaptação dos tecidos às exigências físicas da modalidade.
Num estudo sobre lesões em golfistas, cerca de 83% foram associadas a movimentos repetitivos e 17% a um episódio isolado, como uma pancada do taco no chão (Aspetar, 2023).
O excesso de prática é um dos factores frequentemente associados a estas lesões. Os músculos, tendões, ligamentos e outras estruturas têm uma capacidade específica para tolerar carga e necessitam de tempo para se adaptar ao aumento das exigências. Quando o volume ou a intensidade do treino aumentam demasiado depressa, sobretudo após uma pausa prolongada ou no início da época, pode ocorrer uma sobrecarga dos tecidos, favorecendo o aparecimento de tendinopatias e de outras lesões por sobreuso.
A técnica do swing também desempenha um papel relevante. Durante este gesto, a força é gerada e transmitida sequencialmente pelos membros inferiores, pelas ancas e pelo tronco, chegando aos braços e ao taco. Esta organização do movimento é designada por cadeia cinética.
Quando a rotação depende excessivamente da coluna lombar, em vez de aproveitar adequadamente a mobilidade das ancas e da coluna torácica, ou quando os braços compensam limitações do movimento do tronco, determinadas estruturas podem ficar sujeitas a cargas superiores à sua capacidade de adaptação.
A mobilidade articular e o controlo motor são igualmente importantes. Uma rotação limitada das ancas, uma coluna torácica pouco móvel ou uma resistência muscular insuficiente na região do tronco podem levar a movimentos compensatórios. Por exemplo, a coluna lombar pode ser solicitada para compensar a rotação limitada das ancas, aumentando a exigência mecânica sobre esta região.
Existem ainda outros factores que podem contribuir para o aparecimento de lesões:
- Iniciar a prática sem aquecimento, começando directamente com o driver, quando os músculos e as articulações ainda não estão preparados para a velocidade e a amplitude do movimento.
- Bater o taco no chão, numa raiz ou numa pedra, ou treinar frequentemente em tapetes rígidos. A desaceleração súbita do taco pode transmitir forças de impacto ao punho e ao cotovelo.
- Acumular fadiga ao longo de uma volta de 18 buracos, que pode durar quatro a cinco horas. Com o cansaço, o controlo do movimento e a capacidade de manter a técnica podem diminuir.
- Transportar o saco de golfe ao ombro durante toda a volta, criando uma carga assimétrica sobre a coluna vertebral e a cintura escapular.
O historial de lesões, sobretudo quando a recuperação foi incompleta, e as alterações da força, da mobilidade e da capacidade física associadas ao envelhecimento também podem influenciar a tolerância ao esforço. Estes factores não implicam que seja necessário deixar de jogar, mas justificam uma preparação física adequada e ajustada às necessidades individuais.
Quais são as zonas do corpo mais afectadas pelas lesões no golfe?
A coluna lombar é uma das regiões mais frequentemente afectadas. Segundo a literatura científica, representa cerca de 25% a 37% das lesões em golfistas amadores (McHardy et al., 2007; Aspetar, 2023).
O cotovelo, o ombro, a anca, o joelho e o punho também são frequentemente afectados. Nos membros superiores, as lesões podem surgir no lado que lidera o movimento do swing, correspondente ao lado esquerdo nos jogadores destros. Nos golfistas profissionais, as queixas relacionadas com o punho e a mão assumem particular relevância.
Coluna lombar
A coluna lombar tem uma função importante na estabilidade do tronco, embora participe também nos movimentos de flexão, extensão e rotação. Durante o swing, a combinação de rotação, inclinação lateral e extensão do tronco pode aumentar a exigência mecânica sobre os discos intervertebrais e as articulações da coluna.
Quando a mobilidade das ancas ou da coluna torácica é limitada, a região lombar pode ser solicitada para compensar essas restrições. A repetição deste padrão, sobretudo quando associada a um volume elevado de prática, pode contribuir para o aparecimento ou agravamento da dor.
Alguns estudos sugerem que os golfistas com antecedentes de lesão lombar apresentam maior probabilidade de voltar a sentir dor nesta região (McHardy et al., 2007).
Cotovelo
O denominado cotovelo de golfista, ou epicondilalgia medial, caracteriza-se por dor na região interna do cotovelo, geralmente associada à sobrecarga dos tendões dos músculos flexores do punho e dos dedos. A dor pode agravar-se ao agarrar objectos, fechar a mão com força ou rodar o antebraço.
Apesar da designação, os golfistas também podem desenvolver dor na região externa do cotovelo, frequentemente associada à epicondilalgia lateral, conhecida como cotovelo de tenista. Esta situação pode afectar particularmente o braço que lidera o swing.
Entre os factores associados encontram-se a repetição dos movimentos do antebraço, uma pega excessivamente apertada e os impactos do taco contra o solo. A abordagem clínica pode incluir a gestão da carga, o fortalecimento progressivo dos músculos do antebraço e a revisão da técnica e da pega do taco.
Ombro
A dor no ombro pode surgir durante o backswing, quando o taco é levado para trás, e na fase final do movimento, momentos em que as estruturas do ombro são submetidas a amplitudes e exigências mecânicas específicas.
Uma mobilidade reduzida da coluna torácica pode contribuir para alterações na mecânica do movimento e aumentar a solicitação do ombro. Entre as situações clínicas possíveis encontram-se as tendinopatias da coifa dos rotadores, a bursite, a dor na articulação acromioclavicular e as lesões do labrum glenoidal.
A identificação da estrutura envolvida depende da avaliação clínica, uma vez que diferentes alterações podem produzir sintomas semelhantes.
Anca
As ancas desempenham um papel central na rotação do corpo durante o swing. Quando a mobilidade desta região é limitada, podem surgir movimentos compensatórios que aumentam a solicitação da coluna lombar e dos joelhos.
Num estudo com golfistas profissionais, cerca de 19% dos participantes referiram dor na anca durante o mês anterior à avaliação. As lesões do labrum acetabular foram mais frequentemente identificadas na anca posterior, ou seja, do lado oposto ao alvo durante a posição de preparação do swing (Aspetar, 2023).
Joelho
Durante a fase descendente do swing, o joelho da frente participa na estabilização do membro inferior e na gestão das forças de rotação. Em pessoas com alterações degenerativas articulares ou antecedentes de lesão meniscal, esta exigência mecânica pode contribuir para o agravamento dos sintomas.
A capacidade de controlo do movimento, a força muscular e a mobilidade das articulações adjacentes são factores relevantes na avaliação da função do joelho durante a prática do golfe.
Punho e mão
A dor pode surgir com maior frequência no punho da frente, nomeadamente na região ulnar, situada do lado do dedo mínimo. Uma das estruturas que pode estar envolvida é o tendão do músculo extensor ulnar do carpo, sujeito a solicitações repetidas durante o swing.
Os impactos do taco contra o solo também podem transmitir forças significativas à mão. Em determinadas circunstâncias, estas forças podem provocar uma fractura do hamato, um pequeno osso localizado na região do punho, junto à base da mão.
Como este tipo de fractura pode ser difícil de identificar através de uma avaliação inicial, a dor persistente na base da mão, sobretudo após um impacto, deve ser avaliada por um profissional de saúde.
Como prevenir lesões no golfe
A prevenção passa por adequar a preparação física às exigências do golfe, melhorar a eficiência do movimento e gerir o volume de treino de acordo com a capacidade individual.
1. Aquecer antes de jogar
Uma rotina de aproximadamente 10 minutos, com exercícios de mobilidade das ancas, dos ombros e do tronco, seguida de swings curtos e progressivos, permite preparar o corpo para as exigências do jogo.
É preferível aumentar gradualmente a amplitude e a velocidade do movimento antes de passar para pancadas de maior intensidade, em vez de começar directamente com o driver. A rotina de aquecimento pode ser adaptada com o apoio de um fisioterapeuta, tendo em conta a condição física e os antecedentes de cada jogador.
2. Rever a técnica do swing
A intervenção de um treinador de golfe pode ajudar a melhorar a sequência dos movimentos, a coordenação entre os diferentes segmentos corporais e a utilização da mobilidade disponível nas ancas e no tronco.
Quando existem limitações de mobilidade ou de controlo motor, a Fisioterapia pode contribuir para a sua avaliação e para a definição de exercícios específicos. A Osteopatia pode igualmente ser considerada como complemento, de acordo com as necessidades individuais e após avaliação clínica adequada.
3. Desenvolver força, mobilidade e controlo motor
O fortalecimento dos músculos do tronco, das ancas, dos membros inferiores e dos ombros ajuda a preparar o corpo para as exigências mecânicas do swing.
É igualmente importante preservar a mobilidade das ancas e da coluna torácica, bem como desenvolver equilíbrio e resistência física. Estas capacidades contribuem para manter o controlo do movimento ao longo de uma volta, sobretudo nas fases em que a fadiga começa a acumular-se.
O Pilates Clínico, orientado por um fisioterapeuta, pode integrar um programa individualizado que combine força, mobilidade, estabilidade e controlo motor.
4. Aumentar progressivamente o volume de treino
O tempo dedicado ao jogo e ao treino deve aumentar de forma gradual, sobretudo após uma interrupção prolongada ou um período de menor actividade física.
No campo de treino, é aconselhável intercalar pancadas de maior intensidade com exercícios de curta distância e putts, introduzindo pausas para gerir a fadiga. Após uma lesão, a progressão deve respeitar a evolução dos sintomas, a capacidade funcional e os objectivos de cada jogador.
A Fisioterapia Desportiva pode ajudar a definir critérios para o regresso ao golfe e a ajustar o volume de prática durante esse processo.
5. Ajustar o equipamento e as condições de prática
O comprimento dos tacos, as características da pega e a utilização de luvas adequadas podem influenciar a forma como o jogador segura o equipamento e a tensão exercida sobre o antebraço.
Uma pega demasiado apertada pode aumentar a solicitação muscular, enquanto a prática frequente em superfícies muito rígidas pode intensificar os impactos transmitidos ao punho e ao cotovelo.
A escolha do equipamento e a adaptação das condições de treino devem ter em conta as características físicas do jogador, a técnica utilizada e a presença de sintomas.
Uma avaliação periódica por profissionais de saúde pode ajudar a identificar limitações de mobilidade, défices de força ou alterações do controlo motor que mereçam atenção antes de condicionarem a prática desportiva.
Jogar com dor: quando é aconselhável parar?
A dor muscular ligeira após o exercício pode ocorrer, sobretudo no início da época ou depois de um aumento do volume de treino. Um desconforto ligeiro que diminui com o aquecimento e desaparece nas horas seguintes pode estar associado à adaptação ao esforço, embora a evolução dos sintomas deva ser sempre considerada.
Pelo contrário, a dor que aumenta durante o jogo, persiste no dia seguinte ou obriga a modificar o swing justifica a interrupção da actividade e uma avaliação adequada.
Continuar a jogar com dor pode levar a alterações involuntárias da técnica e a movimentos compensatórios, transferindo a carga para outras estruturas. Esta situação pode agravar os sintomas e dificultar o regresso à prática habitual.
A intensidade da dor não é, por si só, suficiente para determinar a gravidade de uma lesão. A duração dos sintomas, o mecanismo de aparecimento e a presença de outros sinais clínicos também devem ser considerados.
Quando procurar um profissional de saúde?
É aconselhável procurar uma avaliação clínica quando surgem os seguintes sinais:
- Dor que persiste durante vários dias, agrava com a actividade ou reaparece regularmente durante o jogo.
- Dor que desperta a pessoa durante a noite ou interfere com o descanso.
- Dor lombar que irradia para uma perna, formigueiro ou perda de força num braço ou numa perna.
- Inchaço, bloqueio articular ou sensação de instabilidade no joelho.
- Dor na palma da mão após um impacto do taco contra o solo.
- Diminuição da força ao agarrar o taco ou dor acompanhada de estalidos no punho.
A presença de perda de força recente ou progressiva, alterações importantes da sensibilidade ou dor intensa após um traumatismo justifica uma avaliação médica célere.
Uma avaliação precoce permite investigar a origem dos sintomas, identificar eventuais lesões e definir uma abordagem adequada. Pode também ajudar a ajustar a técnica, o treino e a preparação física, de forma a orientar um regresso progressivo ao campo.
Compreender as lesões no golfe numa perspetiva integrativa
A forma como o corpo se movimenta, a força muscular, a mobilidade articular, o volume de treino e a qualidade do descanso influenciam a capacidade de tolerar as exigências do golfe. Factores como o stress quotidiano e a experiência anterior de lesões também podem interferir na percepção da dor, na recuperação e na gestão do esforço.
Por esse motivo, as queixas musculoesqueléticas associadas ao golfe devem ser compreendidas tendo em conta o conjunto de factores físicos e contextuais de cada pessoa, evitando atribuir os sintomas a uma única causa sem avaliação adequada.
Na Integrativa, a abordagem centra-se na compreensão das necessidades individuais e das exigências específicas da prática desportiva. Uma avaliação no início da época, após uma interrupção prolongada ou perante os primeiros sinais de desconforto pode ajudar a identificar limitações funcionais e a orientar a preparação física ou o acompanhamento de uma lesão já existente.
Fisioterapia Desportiva
A Fisioterapia Desportiva permite avaliar a mobilidade, a força, o controlo motor e os padrões de movimento relevantes para a prática do golfe.
Com base nessa avaliação, o fisioterapeuta pode definir um programa de exercícios individualizado, orientar a gestão da carga e acompanhar a recuperação funcional. O regresso ao jogo deve ter em conta a evolução dos sintomas, a capacidade física e a tolerância progressiva às exigências do swing.
Mesmo na ausência de dor, uma avaliação pode identificar limitações de mobilidade ou défices de força que justifiquem um trabalho preventivo.
Osteopatia
A Osteopatia utiliza uma abordagem manual centrada na avaliação da mobilidade e da função do sistema musculoesquelético. No contexto do golfe, pode incluir a avaliação das ancas, da coluna vertebral e de outras regiões envolvidas na rotação do tronco.
As técnicas manuais podem ser consideradas como complemento de um plano individualizado, tendo em conta os sintomas, os objectivos funcionais e a evidência científica disponível. A sua utilização não substitui a investigação clínica quando existe suspeita de lesão estrutural nem dispensa o exercício terapêutico quando este está indicado.
A mobilidade das ancas e da coluna torácica é relevante para a execução do swing, mas a relação entre limitações específicas e dor deve ser estabelecida através de uma avaliação individual, sem presumir que uma alteração de mobilidade é necessariamente a causa dos sintomas.
Pilates Clínico
O Pilates Clínico, orientado por um fisioterapeuta, integra exercícios de força, mobilidade, estabilidade e controlo do movimento. Pode fazer parte de um programa individualizado destinado a melhorar a capacidade funcional e a preparar o corpo para as exigências da prática desportiva.
Uma das áreas frequentemente trabalhadas é o core, o conjunto de músculos que contribui para a estabilidade e o controlo do tronco. Inclui, entre outros, o transverso do abdómen, os músculos oblíquos, os multífidos, o diafragma e o pavimento pélvico.
Durante o swing, estes músculos participam no controlo do tronco enquanto os diferentes segmentos corporais rodam e transferem forças. A sua capacidade de gerar e manter tensão contribui para a coordenação do movimento, embora a eficiência do swing dependa também da técnica, da mobilidade, da força dos membros inferiores e da coordenação global.
Por isso, o trabalho do core no golfe vai além dos exercícios abdominais convencionais. Pode incluir exercícios progressivos de controlo, estabilidade e resistência, adaptados à condição física e às exigências funcionais de cada jogador.
Na Integrativa, a Fisioterapia Desportiva, a Osteopatia e o Pilates Clínico podem ser articulados de acordo com as necessidades identificadas na avaliação individual. A selecção das intervenções deve ter em conta os sintomas, os objectivos funcionais e a evidência científica disponível, privilegiando uma abordagem ajustada a cada pessoa.
Cuidar do corpo para continuar a jogar golfe
Muitas lesões associadas ao golfe estão relacionadas com a sobrecarga e podem manifestar-se inicialmente através de desconforto, dor recorrente ou alterações na execução do swing. Reconhecer estes sinais, preparar o corpo e gerir progressivamente a intensidade e o volume da prática são medidas importantes para preservar a função musculoesquelética e manter a actividade desportiva.
Se sente dor durante ou após o jogo, ou se pretende avaliar a sua mobilidade, força e preparação física para o golfe, uma consulta de Fisioterapia Desportiva na Integrativa pode ajudar a identificar as suas necessidades e a definir um plano de acompanhamento individualizado.
David Brandão | Osteopata e Fisioterapeuta
Cédula Fisioterapeuta: 3652 | Ordem dos Fisioterapeutas // Cédula Osteopata: C-0031697 | ACSS
Integrativa | A saúde e o bem-estar como um estilo de vida















