A dor cervical é uma queixa frequente na população adulta. Embora muitas vezes associada a alterações da coluna cervical, a sua origem nem sempre se encontra exclusivamente nessa região. Em determinados quadros clínicos, a dor no pescoço pode estar relacionada com alterações do nervo trigémeo, frequentemente associadas a disfunções da articulação temporomandibular (ATM), podendo influenciar a manifestação ou manutenção dos sintomas.
Esta relação pode ser mais relevante em situações de dor persistente ou recorrente, nas quais abordagens centradas apenas na coluna cervical apresentam eficácia limitada.
O nervo trigémeo e a sua relação com a dor cervical
O nervo trigémeo é o quinto nervo craniano e desempenha um papel central na sensibilidade da face, da cavidade oral e de parte da região craniana. Para além da sua função sensitiva facial, estabelece ligações funcionais com os segmentos cervicais superiores, nomeadamente C1 e C2, através do complexo trigémino-cervical. Esta área de convergência neurológica permite a integração de aferências provenientes da região craniofacial e cervical.
Esta interligação anatómica e funcional pode explicar porque alterações do sistema trigeminal, associadas à articulação temporomandibular (ATM), podem manifestar-se sob a forma de dor cervical, mesmo na ausência de alterações estruturais relevantes ao nível da coluna cervical, fenómeno descrito na literatura no âmbito do complexo trigémino-cervical (Castien, 2019).
Mecanismos envolvidos na dor cervical relacionada com o trigémeo
Quando o nervo trigémeo se encontra sensibilizado, por exemplo em contextos de disfunção da articulação temporomandibular (ATM), bruxismo, tensão persistente da musculatura da mastigação, sinusites ou intervenções na região craniofacial, essa sensibilização pode repercutir-se nos segmentos cervicais superiores. Nestes casos, a dor é percecionada no pescoço, apesar de a sua origem funcional estar relacionada com estruturas cranianas ou orofaciais.
O processo pode também ocorrer no sentido inverso. Alterações cervicais, como tensão muscular mantida, restrições de mobilidade ou padrões posturais inadequados, podem influenciar os níveis cervicais superiores, que partilham vias neuronais com o trigémeo. Este mecanismo bidirecional pode contribuir para um ciclo de perpetuação da dor, dificultando a resolução quando apenas uma das regiões é considerada.
Do ponto de vista clínico, esta realidade reforça a importância de não interpretar a dor cervical exclusivamente como um problema local.
Sinais clínicos que podem indicar envolvimento do trigémeo ou da articulação temporomandibular
Alguns sinais podem indicar a participação do nervo trigémeo ou da ATM na dor cervical:
- Dor no pescoço associada a irradiação para a cabeça, face ou mandíbula
- Cefaleias que surgem em associação com a dor cervical
- Sensação persistente de rigidez cervical, particularmente em contextos de stress ou bruxismo
- Dor na região occipital que pode estender-se anteriormente
A presença destes sinais justifica uma avaliação clínica mais abrangente, que inclua não apenas a coluna cervical, mas também a região craniana e a articulação temporomandibular (ATM).
Abordagem osteopática na dor cervical relacionada com o trigémeo
Quando a dor cervical envolve o nervo trigémeo, intervenções exclusivamente centradas no pescoço podem ter efeitos limitados ou transitórios. Nesses casos, é importante integrar a avaliação das estruturas cranianas, da articulação temporomandibular (ATM) e das suas relações funcionais com a coluna cervical.
Quando a dor cervical está associada ao nervo trigêmeo, a Osteopatia Craniana surge como uma abordagem útil, pois não se limita a tratar apenas o pescoço, mas considera também o crânio e a articulação temporomandibular (ATM). A Osteopatia tem como objetivo promover o equilíbrio funcional entre estas áreas, tendo em conta a interligação entre os sistemas trigeminal e cervical.
O tratamento inclui técnicas manuais suaves que pretendem melhorar a mobilidade das suturas cranianas e aliviar a tensão nos músculos faciais e do pescoço. Mobilizações articulares podem ser aplicadas para ajudar a melhorar o movimento da ATM, enquanto a libertação miofascial procura reduzir a tensão nos músculos da mandíbula e pescoço, como o trapézio e o esternocleidomastóideo, que frequentemente contribuem para a dor.
Além disso, a Osteopatia também atua sobre o sistema nervoso autónomo, ajudando a melhorar o equilíbrio neuromuscular, o que pode reduzir a dor e contribuir para prevenir episódios futuros. Também podem ser aplicadas técnicas de mobilização das membranas do crânio e a melhoria da circulação sanguínea e linfática na zona para aliviar tensões e melhorar a saúde geral da área afetada.
Com esta abordagem, a Osteopatia não pretende apenas aliviar a dor cervical, mas também melhorar o funcionamento da ATM e a relação entre os sistemas trigeminal e cervical, contribuindo para um alívio mais duradouro.
Compreender a dor cervical numa perspetiva integrada
A dor cervical persistente não tem sempre uma origem exclusiva na coluna cervical. Em muitos casos, ela resulta de interações complexas entre a coluna cervical, a ATM e o nervo trigémeo, envolvendo uma série de fatores musculares, posturais e neurológicos.
A Osteopatia pode ser útil para aliviar tensões musculares, restaurar a mobilidade da coluna cervical e promover o equilíbrio do sistema nervoso, o que pode ser essencial para a gestão da dor cervical e a melhoria da função.
Uma avaliação individualizada é importante, considerando não apenas as estruturas músculo-esqueléticas, mas também as interações entre o crânio, a ATM e a coluna cervical, utilizando a Osteopatia Craniana para uma abordagem mais completa e eficaz.
Na Integrativa, as consultas especializadas na ATM e dor orofacial fazem parte de uma avaliação clínica global, onde o corpo é analisado de forma integrativa, através da Fisioterapia e da Osteopatia, considerando as interações entre os sistemas músculo-esquelético (Osteopatia Estrutural), visceral (Osteopatia Visceral) e craniano (Osteopatia Craniana). Uma avaliação clínica completa e personalizada permite enquadrar cada situação de forma detalhada e definir estratégias ajustadas às necessidades individuais.
A consulta de avaliação com um Fisioterapeuta – Osteopata especializado permite compreender, de forma cuidadosa e individualizada, como esta abordagem integrativa pode ser útil para o seu caso.
David Brandão | Osteopata e Fisioterapeuta
Especializado em Osteopatia Craniana na ATM, Dor Orofacial e Cefaleias
Cédula Fisioterapeuta: 3652 | Ordem dos Fisioterapeutas // Cédula Osteopata: C-0031697 | ACSS
Artigos de referência
- Castien, R. F., & De Hertogh, W. (2019). A neuroscience perspective of physical treatment of headache and neck pain. Frontiers in Neurology, 10, 276. https://doi.org/10.3389/fneur.2019.00276
- Bogduk, N. (2003). The anatomy and pathophysiology of neck pain. Physical Medicine and Rehabilitation Clinics of North America, 14(3), 455–472. https://doi.org/10.1016/S1047-9651(03)00041-1
- Bartsch, T., & Goadsby, P. J. (2003). The trigeminocervical complex and migraine: Current concepts and synthesis. Current Pain and Headache Reports, 7(5), 371–376. https://doi.org/10.1007/s11916-003-0032-4
- Biondi, D. M. (2005). Cervicogenic headache: A review of diagnostic and treatment strategies. The Journal of the American Osteopathic Association, 105(4 Suppl 2), 16S–22S.
- Fernández-de-Las-Peñas, C., & Cuadrado, M. L. (2014). Physical therapy for headaches. Cephalalgia, 34(9), 748–756. https://doi.org/10.1177/0333102414530526
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