“Estou com uma ciática” é uma frase que se ouve com frequência. O termo é usado no dia a dia para descrever quase qualquer dor que desça da zona lombar ou da nádega para a perna. O problema é que “ciática” não é um diagnóstico: é a descrição de um sintoma. E muitas das dores que as pessoas chamam de ciática têm, na verdade, outra origem.
Perceber a diferença é essencial, porque o tratamento depende da causa, e não apenas do local onde a dor se sente.
O que é o nervo ciático?
O nervo ciático é o maior nervo do corpo. É formado pela junção de raízes nervosas que saem da coluna lombar e do sacro (de L4 a S3), passa pela região da nádega, desce pela parte de trás da coxa e divide-se, habitualmente acima do joelho, em dois ramos que seguem até à perna e ao pé.
O que é a dor ciática?
A dor ciática é uma dor que se estende ao longo do trajeto do nervo ciático ou de uma das raízes nervosas que o formam. Em termos clínicos, a designação mais rigorosa é dor radicular lombossagrada, porque na grande maioria dos casos o problema está na raiz nervosa, junto à coluna, e não no nervo ao longo da perna.
Habitualmente, a dor ciática:
- Afeta apenas uma perna
- Desce abaixo do joelho, muitas vezes até ao pé, seguindo um trajeto bem definido
- É sentida na perna com igual ou maior intensidade do que nas costas
- É descrita como uma dor em “choque”, queimadura ou “corrente elétrica”
- Pode ser acompanhada de formigueiro, dormência, perda de força ou diminuição dos reflexos
Quando existem estes sinais neurológicos, fala-se em radiculopatia, ou seja, a raiz nervosa não só está irritada como também apresenta alterações na sua função.
Qual é a causa mais frequente?
Em cerca de 90% dos casos, a dor ciática está associada a uma hérnia discal lombar que afeta uma raiz nervosa, sobretudo ao nível de L4-L5 e L5-S1 (Koes et al., 2007). Outras causas possíveis incluem o estreitamento dos canais por onde passam os nervos (estenose), alterações degenerativas da coluna ou, mais raramente, o escorregamento de uma vértebra (espondilolistese).
Importa saber que a dor não resulta apenas da compressão mecânica. O material do disco herniado provoca também uma reação inflamatória à volta da raiz nervosa, que tem um papel importante nos sintomas (Ropper & Zafonte, 2015). Isto ajuda a explicar porque é que a dor pode melhorar mesmo quando a hérnia continua visível nos exames.
Uma hérnia no exame explica sempre a dor?
Não. Alterações como protusões e hérnias discais são muito frequentes em pessoas sem qualquer dor, e a sua prevalência aumenta com a idade (Brinjikji et al., 2015). Por isso, um exame de imagem só tem significado quando é interpretado em conjunto com os sintomas e com a avaliação clínica. Encontrar uma hérnia na ressonância magnética não significa, por si só, que seja ela a causa da dor.
Então, toda a dor na parte de trás da perna é ciática?
Não. Várias estruturas podem provocar dor na nádega e na parte de trás da coxa sem que exista envolvimento de uma raiz nervosa. É a chamada dor referida somática, por vezes designada popularmente como “pseudociática”. Entre as causas mais frequentes estão:
- Articulações da coluna lombar (articulações facetárias)
- Articulação sacroilíaca
- Músculos da região glútea, incluindo a chamada síndrome glútea profunda, em que o nervo ciático pode ser irritado na sua passagem pela nádega
- Tendinopatia dos isquiotibiais, junto ao ísquio (o osso onde nos sentamos)
- Dor na região lateral da anca, na zona do trocânter
- Articulação da anca, que pode referir dor para a nádega e a coxa
A dor referida somática tem habitualmente características diferentes da dor ciática: é mais difusa, difícil de localizar com precisão, costuma ficar acima do joelho e não é acompanhada de alterações da sensibilidade, da força ou dos reflexos.
Existem ainda outras situações, menos frequentes, que também podem provocar dor na perna e que exigem atenção médica, como a doença arterial periférica, em que a dor surge ao caminhar e alivia ao parar, por falta de circulação, e causas mais raras, como tumores, infeções ou algumas situações ginecológicas.
Como se distingue a dor ciática de outras dores?
Através de uma avaliação clínica cuidada, que inclui:
- Uma conversa detalhada sobre o início, o trajeto, o tipo de dor e os fatores que a agravam ou aliviam
- Testes de mobilidade da coluna, da anca e da articulação sacroilíaca
- Testes neurodinâmicos, que avaliam a sensibilidade do sistema nervoso ao movimento, como o teste de elevação da perna estendida (teste de Lasègue) ou o teste de slump
- Avaliação da sensibilidade, da força muscular e dos reflexos
- Testes específicos para as outras estruturas que podem referir dor para a perna
Na maioria dos casos, não são necessários exames de imagem nas primeiras semanas. A ressonância magnética está indicada sobretudo quando existem sinais de alarme ou quando os sintomas não melhoram com o tratamento conservador e se pondera outra intervenção (NICE, 2020).
Quando deve procurar ajuda médica urgente?
Algumas situações exigem avaliação médica imediata:
- Dormência na zona genital, das nádegas ou da parte interna das coxas (“zona da sela”)
- Dificuldade em urinar, perda de controlo da urina ou das fezes
- Dor ciática nas duas pernas em simultâneo
- Perda de força progressiva, como dificuldade em levantar a ponta do pé
- Febre, perda de peso sem explicação ou história de cancro
- Dor após uma queda ou traumatismo importante
Os primeiros três sinais podem indicar uma síndrome da cauda equina, uma situação rara, mas que exige tratamento urgente.
Qual é a evolução habitual da dor ciática?
Na maioria das pessoas, a evolução é favorável. Uma grande parte melhora significativamente nas primeiras semanas a meses, com tratamento conservador (Koes et al., 2007). Mesmo quando existe uma hérnia discal, é frequente que esta diminua de tamanho ao longo do tempo.
Como se trata?
O tratamento deve ser orientado para a causa identificada na avaliação e ajustado a cada pessoa. De acordo com as recomendações clínicas atuais (NICE, 2020), a abordagem inicial inclui:
Manter-se ativo
O repouso prolongado na cama não é recomendado. Manter as atividades do dia a dia, adaptadas à dor, favorece a recuperação.
Exercício terapêutico
O exercício orientado e progressivo é uma das bases do tratamento, ajudando a recuperar a mobilidade, a força e a confiança no movimento.
Terapia manual
A terapia manual, realizada no âmbito da Fisioterapia ou da Osteopatia, pode ser utilizada para aliviar a dor e melhorar a mobilidade, sempre integrada num plano que inclua exercício.
Educação
Compreender o que está a acontecer, que a maioria dos casos evolui favoravelmente e que a dor não significa necessariamente lesão reduz o medo e ajuda a pessoa a retomar as suas atividades.
Medicação
A decisão sobre medicação cabe ao médico. É importante saber que, na dor ciática, o efeito de muitos analgésicos e anti-inflamatórios é limitado, e que alguns medicamentos frequentemente utilizados não são recomendados pelas orientações clínicas atuais.
Outras opções
Quando a dor é intensa e persistente apesar do tratamento conservador, podem ser consideradas, por indicação médica, infiltrações ou cirurgia. A cirurgia tende a aliviar a dor mais rapidamente, mas, a longo prazo, os resultados são semelhantes aos do tratamento conservador na maioria das pessoas (Peul et al., 2007). Perante sinais neurológicos graves ou progressivos, a avaliação cirúrgica é prioritária.
Na gravidez, a dor na perna é ciática?
Na maioria dos casos, não. A dor ciática verdadeira, causada por uma hérnia discal, é pouco frequente na gravidez. A dor na nádega e na parte de trás da coxa que muitas grávidas sentem está, habitualmente, relacionada com a dor da cintura pélvica, que envolve as articulações da bacia. Esta distinção é importante, porque a abordagem é diferente, e a Fisioterapia Pélvica pode ter aqui um papel relevante.
A abordagem na Integrativa
A dor ciática é um sintoma, e não um diagnóstico. Indica que uma raiz nervosa ou o nervo ciático estão envolvidos, mas não diz onde nem porquê. Por outro lado, muitas dores na nádega e na perna não são ciática e têm origem em articulações, músculos ou tendões. Só uma avaliação cuidada permite distinguir estas situações e definir o tratamento adequado.
Ou seja: a dor ciática não é tudo, e nem tudo é dor ciática.
Na Integrativa, cada caso começa com uma avaliação clínica detalhada, que procura identificar a origem da dor, despistar sinais de alarme e compreender os fatores que podem estar a contribuir para o problema, como o sono, o stress, a atividade física e o contexto de vida, com base em princípios da Psiconeuroimunologia Clínica. O acompanhamento combina Osteopatia e Fisioterapia e, quando indicado, pode ser articulado com o Pilates Clínico, para uma recuperação progressiva e a prevenção de recaídas, e com o médico, sempre que necessário.
Se sente dor na zona lombar, na nádega ou na perna, uma avaliação individualizada permite compreender a origem da sua dor e definir um plano ajustado às suas necessidades. Agende a sua consulta na Integrativa.
Referências bibliográficas
Brinjikji, W., Luetmer, P. H., Comstock, B., Bresnahan, B. W., Chen, L. E., Deyo, R. A., Halabi, S., Turner, J. A., Avins, A. L., James, K., Wald, J. T., Kallmes, D. F., & Jarvik, J. G. (2015). Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. American Journal of Neuroradiology, 36(4), 811–816. https://doi.org/10.3174/ajnr.A4173
Koes, B. W., van Tulder, M. W., & Peul, W. C. (2007). Diagnosis and treatment of sciatica. BMJ, 334(7607), 1313–1317. https://doi.org/10.1136/bmj.39223.428495.BE
National Institute for Health and Care Excellence (NICE). (2020). Low back pain and sciatica in over 16s: Assessment and management (NICE guideline NG59). https://www.nice.org.uk/guidance/ng59
Peul, W. C., van Houwelingen, H. C., van den Hout, W. B., Brand, R., Eekhof, J. A., Tans, J. T., Thomeer, R. T., & Koes, B. W. (2007). Surgery versus prolonged conservative treatment for sciatica. New England Journal of Medicine, 356(22), 2245–2256. https://doi.org/10.1056/NEJMoa064039
Ropper, A. H., & Zafonte, R. D. (2015). Sciatica. New England Journal of Medicine, 372(13), 1240–1248. https://doi.org/10.1056/NEJMra1410151
David Brandão | Osteopata e Fisioterapeuta
Especializado em Psiconeuroimunologia Clínica
Cédula Fisioterapeuta: 3652 | Ordem dos Fisioterapeutas // Cédula Osteopata: C-0031697 | ACSS
Integrativa | A saúde e o bem-estar como um estilo de vida















