O regresso das férias nem sempre é simples. Cansaço, irritabilidade, dificuldade em dormir, desmotivação ou ansiedade podem surgir nos primeiros dias de retorno à rotina. Na maioria das vezes, são passageiros. Mas, por vezes, também podem ser um sinal de que há algo na relação com o trabalho ou com o ritmo de vida que merece ser olhado com mais atenção.
Voltar de férias implica uma mudança brusca de ritmo.
Durante alguns dias ou semanas, há normalmente mais liberdade para escolher horários, descansar, estar com outras pessoas, passar tempo fora de casa ou simplesmente fazer menos. Depois, regressam quase em simultâneo o despertador, os compromissos, as mensagens por responder, as reuniões, as deslocações e a organização da vida familiar.
É compreensível que o corpo e a mente precisem de algum tempo para se reajustar.
Nos primeiros dias, algumas pessoas sentem maior cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações do sono, menor motivação ou uma sensação de tristeza associada ao fim das férias. Esta experiência é frequentemente designada por síndrome pós-férias, embora não corresponda a um diagnóstico clínico formal.
Uma fase de transição
O desconforto que pode surgir no regresso ao trabalho não significa necessariamente que exista um problema psicológico ou que a pessoa esteja insatisfeita com a sua profissão.
Muitas vezes, trata-se simplesmente de uma resposta à mudança.
Passamos de um período com maior autonomia e menor pressão para um quotidiano estruturado por horários, responsabilidades e exigências. Mesmo quando gostamos do nosso trabalho, essa transição pode exigir alguns dias de adaptação.
Entre os sinais mais frequentes podem surgir:
- menor energia;
- dificuldade em retomar o ritmo habitual;
- irritabilidade;
- alterações do sono;
- ansiedade;
- sensação de desânimo;
- menor capacidade de concentração;
- pouca vontade de regressar às tarefas habituais.
Na maioria das pessoas, estas sensações tendem a diminuir progressivamente à medida que os horários, o sono e as rotinas voltam a estabilizar.
Porque pode ser tão difícil regressar
O fim das férias não representa apenas o regresso ao trabalho. Muitas vezes, significa também voltar a gerir várias exigências ao mesmo tempo.
Há tarefas que ficaram acumuladas, decisões adiadas, emails por responder e projetos que voltam a exigir atenção. Ao mesmo tempo, é necessário retomar a organização da casa, os horários familiares, as atividades das crianças ou o regresso às aulas.
Por isso, o impacto pode ser particularmente intenso quando várias mudanças acontecem em simultâneo.
Existe ainda outro contraste importante: durante as férias, muitas pessoas conseguem recuperar algum descanso, dormir melhor ou sentir menos pressão. Quando regressam ao contexto habitual, os fatores de stress que estavam temporariamente afastados voltam a estar presentes.
As férias podem ajudar a recuperar energia. Mas não eliminam necessariamente as condições que provocam stress ao longo do ano.
Nem todo o desconforto é igual
Sentir pouca vontade de regressar ao trabalho durante alguns dias não é, por si só, motivo de preocupação.
O mais importante é observar três aspetos: quanto custa, durante quanto tempo e até que ponto interfere com a vida quotidiana.
É diferente sentir algum cansaço e desmotivação durante os primeiros dias ou sentir ansiedade intensa, tristeza persistente ou alterações significativas do sono durante várias semanas.
Também merece atenção quando o mal-estar começa a afetar claramente o desempenho profissional, as relações pessoais, a capacidade de descansar ou o interesse por atividades que habitualmente são importantes.
Nestes casos, pode ser útil perceber se estamos apenas perante uma adaptação mais difícil ou se existem outros fatores envolvidos, como stress prolongado, esgotamento profissional, ansiedade ou sintomas depressivos.
Tornar o regresso mais gradual
Nem sempre é possível escolher como se regressa ao trabalho. Ainda assim, pequenas decisões podem tornar esta mudança menos exigente.
Criar alguns dias de transição.
Quando possível, regressar de viagem antes do último dia de férias permite reorganizar a casa, recuperar horários e preparar o início da semana sem fazer tudo de uma vez.
Regular novamente os horários de sono
Se os horários mudaram muito durante as férias, pode ser útil aproximá-los gradualmente da rotina habitual nos dias anteriores ao regresso.
Escolher prioridades
O primeiro dia não precisa de resolver tudo aquilo que se acumulou. Identificar o que é realmente urgente ajuda a evitar a sensação de que todas as tarefas têm a mesma importância.
Evitar uma agenda demasiado cheia
Sempre que houver margem para isso, deixar algum espaço entre reuniões e compromissos pode facilitar a readaptação ao ritmo de trabalho.
Manter hábitos que fizeram bem
Passear, fazer exercício, comer com mais calma, passar tempo ao ar livre ou reservar momentos sem tecnologia não precisam de desaparecer quando as férias terminam.
Ter momentos agradáveis previstos
O bem-estar não deve ficar concentrado exclusivamente no período de férias. Ter atividades prazerosas distribuídas pelas semanas ajuda a evitar a sensação de que é necessário esperar vários meses para voltar a descansar ou desfrutar do tempo.
E quando voltar custa sempre?
Há situações em que a dificuldade de regressar não acontece apenas durante alguns dias.
Se todos os anos o fim das férias provoca um mal-estar muito intenso ou se esse sentimento aparece todos os domingos, todas as manhãs ou sempre que pensamos no trabalho pode ser útil olhar para a situação de outra forma.
Talvez a pergunta deixe de ser apenas: “Como é que volto a habituar-me à rotina?” e passe também a se “O que existe nesta rotina que me está a pesar?”.
A resposta pode estar na carga de trabalho, no ambiente profissional, na falta de autonomia, nas relações dentro da equipa, na dificuldade em estabelecer limites ou na sensação de que sobra pouco espaço para outras áreas importantes da vida.
Nem sempre isto significa que seja necessário mudar de profissão ou tomar decisões imediatas.
Pode significar apenas que vale a pena compreender melhor de onde vem o desconforto e perceber que mudanças, grandes ou pequenas, poderiam tornar o quotidiano mais sustentável.
Quando procurar apoio
Se os sintomas persistirem durante várias semanas, se se tornarem progressivamente mais intensos ou se começarem a interferir de forma significativa com o trabalho, o sono, as relações ou as atividades quotidianas, procurar apoio psicológico pode ser útil.
O acompanhamento psicológico pode ajudar a identificar as fontes de stress, compreender padrões que se repetem, desenvolver estratégias de gestão da ansiedade e estabelecer limites mais ajustados.
Em alguns casos, permite também explorar questões relacionadas com satisfação profissional, equilíbrio entre diferentes áreas da vida ou decisões de carreira.
Não se trata de eliminar todas as experiências de cansaço, frustração ou desmotivação. Elas fazem parte da vida. Trata-se de perceber quando são passageiras e quando estão a indicar que alguma coisa precisa de mudar. O regresso à rotina não precisa de acontecer em piloto automático.
Na Integrativa, a psicologia para adultos, o coaching pessoal e profissional e a orientação vocacional podem ajudar a compreender melhor estas fases de transição e a encontrar formas mais sustentáveis de lidar com o trabalho, o tempo e as diferentes exigências do quotidiano.
Integrativa | A saúde e o bem-estar como um estilo de vida















