A paralisia facial ocorre devido a uma lesão do nervo facial (VII par craniano), resultando na perda parcial ou total dos movimentos da face. Durante o processo de regeneração nervosa, quando este decorre de forma desorganizada, podem surgir sincinesias, caracterizadas por movimentos involuntários associados a ações voluntárias. Estas alterações podem interferir com a expressão facial, a fala e outras funções essenciais do dia a dia.
O reconhecimento precoce das sincinesias e o acompanhamento por um fisioterapeuta especializado são determinantes para reduzir o seu impacto funcional. Ao longo deste artigo, exploramos o que são as sincinesias, porque surgem, quais os sinais de alerta e como podem ser prevenidas.
O que são sincinesias?
A sincinesia é uma sequela frequente da paralisia facial. O termo deriva do grego “syn” (juntos) e “kinesis” (movimento), referindo-se a movimentos que ocorrem em simultâneo.
De forma simplificada, trata-se de um movimento involuntário que acompanha um movimento voluntário. Ou seja, ao contrair intencionalmente um músculo facial, ocorre simultaneamente a ativação de outro músculo que não deveria participar nessa ação.
A classificação das sincinesias baseia-se nos grupos musculares envolvidos. O primeiro termo corresponde ao grupo muscular ativado voluntariamente e o segundo ao grupo que se move de forma involuntária. Por exemplo:
- Sincinesia oculo-oral – quando uma contração voluntária dos músculos dos olhos, como fechar o olho, provoca um movimento involuntário da boca
- Sincinesia oral-ocular – quando um movimento voluntário da boca, como sorrir ou franzir os lábios, desencadeia um movimento involuntário dos olhos
Porque surgem as sincinesias?
Os movimentos involuntários ou movimentos em massa resultam de uma regeneração desorganizada do nervo facial após compressão ou lesão. Vários mecanismos podem estar envolvidos:
- Regeneração aberrante (miss-wiring) – os axónios regeneram-se de forma desorganizada, estabelecendo ligações com músculos diferentes daqueles que originalmente inervavam
- Transmissão efática (cross-talk elétrico entre ramos nervosos) – devido à perda da bainha de mielina, os impulsos elétricos podem propagar-se entre ramos adjacentes do nervo facial, ativando músculos de forma indevida
- Hiperexcitabilidade nuclear – as células do núcleo do nervo facial tornam-se mais sensíveis após degeneração axonal, reagindo a estímulos de nervos vizinhos
- Plasticidade cortical mal-adaptativa – alterações no córtex motor podem originar padrões anómalos de ativação muscular
É provável que, na maioria dos casos, as sincinesias resultem de uma combinação destes mecanismos.
Estudos recentes indicam que, clinicamente, tendem a manifestar-se a partir do quinto ou sexto mês após o início da paralisia, podendo surgir já no terceiro mês e intensificar-se até cerca de dois anos.
Como detetar precocemente as sincinesias?
A identificação precoce permite ajustar a abordagem e reduzir a sua progressão. Alguns sinais de alerta incluem:
- Movimentos involuntários durante ações voluntárias, como fechar os olhos ao sorrir ou mover a boca ao piscar
- Aumento da tensão muscular em repouso, com sensação de rigidez ou contração constante
- Assimetria progressiva ao longo do tempo, com acentuação do sulco nasolabial ou redução aparente do tamanho do olho
- Dificuldade em isolar movimentos, com ativação exagerada de músculos adjacentes
- Fadiga facial ao falar, mastigar ou realizar expressões
- Diminuição da capacidade de relaxar o rosto
- Intensificação das contrações involuntárias após exercícios repetitivos ou excessivos
Estes sinais justificam avaliação por fisioterapeuta especializado em paralisia facial.
Como prevenir as sincinesias?
A prevenção assenta numa abordagem estruturada e individualizada. Algumas orientações fundamentais incluem:
- Realizar movimentos suaves e controlados, orientados por um fisioterapeuta especializado
- Privilegiar a qualidade do movimento em vez da força, uma vez que a musculatura facial requer coordenação e seletividade
- Evitar exercícios de mímica facial realizados sem orientação
- Não recorrer a massagens agressivas ou estimulação elétrica, que podereforçar padrões motores inadequados
- Integrar técnicas de relaxamento, alongamentos leves e mobilização suave para reduzir tensão muscular
Cada pessoa apresenta um processo de recuperação distinto, pelo que a reeducação neuromuscular deve ser ajustada às necessidades individuais.
O aparecimento de sincinesias não representa apenas uma alteração estética. Pode comprometer funções essenciais como a expressão emocional, a comunicação, a mastigação, a fala e o pestanejar, com impacto significativo na qualidade de vida e no bem-estar psicológico.
Compreender as sincinesias numa perspetiva integrativa
A recuperação após uma paralisia facial exige uma abordagem especializada centrada na reorganização neuromuscular e na qualidade do movimento. A fisioterapia especializada tem como objetivo apoiar a reeducação dos padrões motores, reduzir movimentos involuntários e promover maior simetria e funcionalidade facial.
Na Integrativa, a fisioterapia especializada em paralisia facial baseia-se numa avaliação clínica rigorosa da mobilidade, simetria, força muscular, coordenação, padrões compensatórios e impacto funcional. A partir desta análise, é delineada uma abordagem individualizada de reeducação neuromuscular, ajustada à fase de evolução e às características específicas de cada pessoa.
A intervenção especializada permite apoiar o equilíbrio dos movimentos faciais, contribuindo para uma maior naturalidade na expressão e melhor integração funcional no dia a dia.
Alexandra Gomes | Fisioterapeuta especializada no tratamento e recuperação da Paralisia Facial
membro da Facial Therapy Specialists International (FTSI)
Cédula Fisioterapeuta: 1459 | Ordem dos Fisioterapeutas
Integrativa | A saúde e o bem-estar como um estilo de vida













