A dor nas costas é um problema muito comum, que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Embora seja frequentemente associada a alterações da coluna vertebral, dos músculos ou das articulações, nem sempre a sua origem é exclusivamente músculo-esquelética.
Em alguns casos, a dor nas costas pode ter origem visceral, ou seja, resultar de alterações no funcionamento de órgãos internos como o estômago, os rins, o fígado ou o intestino. Devido às ligações neurológicas entre estes órgãos e a coluna vertebral, a dor pode ser percecionada à distância do local primário da disfunção, manifestando-se, por exemplo, na região lombar, dorsal ou cervical.

Netter, F. H. (2011). Atlas of human anatomy (7th ed.). Saunders/Elsevier.
A dor nas costas é uma das queixas mais comuns, afetando uma grande parte da população mundial. Frequentemente associada a problemas na coluna vertebral, músculos ou articulações, a origem da dor nem sempre se limita a essas estruturas. Em muitos casos, a dor nas costas pode ter uma origem visceral, ou seja, estar relacionada com disfunções nos órgãos internos, como o estômago, fígado, rins ou intestinos. Devido às interações neurológicas e fasciais entre esses órgãos e a coluna vertebral, a dor pode irradiar para áreas distantes da sua origem, como as regiões lombar, dorsal ou cervical. A Osteopatia Visceral oferece uma abordagem terapêutica eficaz para lidar com esse tipo de dor, tratando não apenas os sintomas, mas também as causas subjacentes.
Osteopatia Visceral: abordagem terapêutica
A Osteopatia Visceral é uma abordagem terapêutica manual que tem como objetivo restaurar o equilíbrio funcional dos órgãos internos e otimizar a dinâmica do corpo. Utilizando técnicas manuais específicas, esta abordagem trata as interações entre os órgãos internos e a coluna vertebral, contribuindo para a redução da dor nas costas de origem visceral e promovendo o bem-estar global do paciente.
Dor nas costas de origem visceral: mecanismo e causas
A dor nas costas de origem visceral não resulta de alterações estruturais na coluna vertebral, mas sim de processos funcionais nos órgãos internos e de como a informação sensorial desses órgãos é processada pelo sistema nervoso central. Os órgãos internos (ou vísceras) estão intimamente ligados ao sistema nervoso autónomo, que regula funções involuntárias como digestão, circulação e respiração. A comunicação entre os órgãos internos e o sistema músculo-esquelético ocorre por meio de vias aferentes sensoriais, ou seja, fibras nervosas que transmitem informações dos órgãos para o sistema nervoso central (Cervero & Laird, 1999).
Essas informações convergem na medula espinhal, mais especificamente no corno dorsal, onde sinais provenientes de diferentes tecidos são processados em conjunto. As aferências viscerais (provenientes dos órgãos internos) combinam-se com as aferências somáticas (provenientes da pele, músculos e tecidos da coluna vertebral). Essa convergência víscero-somática pode dificultar a identificação da origem da dor, uma vez que o sistema nervoso pode interpretar o sinal doloroso como proveniente da coluna vertebral, mesmo que seja originado num órgão interno (Wilfrid Jänig, 2009).
Adicionalmente, certos processos viscerais, como inflamação, distensão de órgãos ocos, alterações na motilidade intestinal e disfunções digestivas, podem aumentar a excitabilidade das vias sensoriais, tornando mais provável a perceção de dor referida. Esse fenômeno ocorre devido à sensibilização central, processo que diminui o limiar de ativação da dor, fazendo com que estímulos de menor intensidade sejam percebidos como mais dolorosos (Woolf, 2011).
Assim, uma alteração funcional num órgão interno pode manifestar-se como dor lombar, dorsal ou cervical, mesmo sem alterações estruturais visíveis na coluna. A dor de origem visceral deve ser compreendida como um fenômeno neurofisiológico real e não como uma manifestação psicológica. A experiência de dor decorre da forma como o sistema nervoso central integra e modula as informações sensoriais provenientes de diferentes tecidos, com base na sua organização anatómica e funcional (Gebhart, 2000).
Mecanismo da dor referida
A dor referida ocorre quando a dor sentida numa parte do corpo tem sua origem em um órgão interno. Esse fenômeno é causado pela convergência das vias nervosas que transmitem sinais sensoriais tanto dos órgãos internos quanto das estruturas musculoesqueléticas, que se encontram nos mesmos segmentos da medula espinhal. Como consequência, o sistema nervoso pode interpretar a dor numa área distante da origem real do problema.
A convergência das aferências sensoriais das vísceras e das estruturas musculoesqueléticas na medula espinhal, ou seja, a fusão dos sinais dos órgãos internos e dos músculos no corno dorsal, dificulta a discriminação da origem da dor. Ambos os tipos de sinais nociceptivos são processados na mesma região da medula, o que pode levar a uma interpretação errada da origem do estímulo doloroso. Este fenómeno é comum em várias condições viscerais, representando um desafio ao diagnóstico, pois a dor pode não estar localizada na área do problema original, mas em regiões distantes (Cervero & Laird, 1999). Por exemplo, uma disfunção no fígado ou na vesícula biliar pode ser sentida como dor no ombro direito, devido à interconexão nervosa entre essas áreas.
A Osteopatia Visceral reconhece a dor musculoesquelética de origem visceral como um fenómeno crucial para compreender sintomas que se manifestam fora do local primário da disfunção. O principal mecanismo envolvido é a convergência das aferências sensoriais das vísceras e dos tecidos musculoesqueléticos na medula espinhal, dificultando a discriminação entre a origem visceral e musculoesquelética do estímulo nociceptivo (Wilfrid Jänig, 2009).
A relação entre vísceras, fáscia e coluna vertebral
Os órgãos internos não funcionam de forma independente do sistema músculo-esquelético. Cada órgão está integrado a um sistema fascial contínuo, que envolve e conecta os órgãos internos aos músculos, à coluna vertebral e à pélvis. Este sistema fascial permite que os órgãos se adaptem às exigências do movimento, postura e variações na pressão intra-abdominal.
Quando o sistema fascial perde a sua capacidade de adaptação, devido a fatores como inflamação, cicatrização, stress crónico ou sobrecarga funcional, podem surgir restrições na mobilidade visceral e fascial. Essas restrições podem gerar tensões que afetam áreas distantes, como a coluna vertebral, o diafragma e a pélvis, resultando em padrões de dor musculoesquelética. As alterações podem levar a:
- Aumento do tónus muscular reflexo em segmentos específicos da coluna;
- Redução da mobilidade articular, especialmente nas regiões lombares e torácicas;
- Alterações no padrão respiratório, com menor excursão do diafragma.
Com o tempo, essas adaptações podem resultar em rigidez lombar, tensão dorsal persistente ou desconforto cervical, mesmo na ausência de alterações estruturais visíveis na coluna. Neste caso, a dor nas costas não é apenas um problema local, mas sim uma interação funcional entre os órgãos internos, a fáscia e o sistema músculo-esquelético.
Exemplos clínicos de dor nas costas de origem visceral
A dinâmica visceral pode ser relevante em diversos cenários clínicos. Por exemplo:
- Dor lombar persistente sem alterações estruturais: Pacientes com dor lombar crónica, mas sem alterações visíveis nos exames de imagem, podem ter disfunções viscerais, como restrições na mobilidade do cólon ou alterações na mecânica respiratória. Essas disfunções podem gerar padrões de tensão fascial, afetando a região lombar e resultando em dor persistente. A Osteopatia Visceral pode ser útil para restaurar a mobilidade visceral e aliviar as tensões, contribuindo para a redução da dor crónica.
- Desconforto cervical e cintura escapular: Outro exemplo envolve o desconforto cervical recorrente e a sensação de tensão na região da cintura escapular. Quando ocorrem alterações na mobilidade torácica e na interação funcional entre os órgãos torácicos, o diafragma e a coluna cervical, isso pode afetar o tónus muscular e o controlo postural, exacerbando os sintomas. As disfunções viscerais podem influenciar a dinâmica muscular, aumentando a rigidez e dificultando o movimento.
Esses exemplos ilustram como as disfunções viscerais e as adaptações fasciais podem contribuir para a dor nas costas, muitas vezes sem uma causa estrutural identificável. A interação entre os sistemas visceral e músculo-esquelético é clara e comprovada, sendo essencial uma avaliação detalhada por um osteopata especializado em Osteopatia Visceral para identificar essas interações e orientar a abordagem de forma eficaz.
Quando considerar uma componente visceral na dor nas costas
Certos padrões clínicos podem indicar a possibilidade de um contributo visceral para a dor nas costas, sem que isso constitua, por si só, um diagnóstico definitivo. Entre os sinais que podem sugerir uma componente visceral, destacam-se:
- Dor pouco influenciada pelo movimento ou pelos alongamentos;
- Dor profunda, difusa ou de localização imprecisa;
- Associação com sintomas digestivos, urinários, respiratórios ou pélvicos;
- Variação dos sintomas com refeições, stress, ciclo menstrual ou qualidade do sono;
- Recorrência frequente da dor, apesar de uma intervenção músculo-esquelética adequada.
Quando estes padrões clínicos estão presentes, é fundamental realizar uma avaliação completa que considere a interação com o sistema visceral para proporcionar uma compreensão mais completa e detalhada do quadro clínico.
Como a Osteopatia Visceral pode ajudar
A Osteopatia Visceral fundamenta-se na ideia de que o corpo humano é um sistema interdependente, na qual a função dos órgãos internos está interconectada com o sistema músculo-esquelético, a fáscia e o sistema nervoso autónomo. Esta abordagem reconhece que alterações na mobilidade, motilidade ou tensão dos órgãos internos podem ter repercussões em outras estruturas corporais, como músculos e articulações, mesmo quando os sintomas se manifestam em áreas distantes do órgão primário afetado.
Durante uma avaliação de Osteopatia Visceral, o osteopata procura identificar áreas de tensão ou restrição na mobilidade dos órgãos internos, como o cólon, o fígado ou outros órgãos abdominais e torácicos. A avaliação considera não apenas os órgãos, mas também as suas relações biomecânicas com o sistema fascial, o sistema músculo-esquelético, a regulação neurovegetativa e os padrões respiratórios do paciente. Esta abordagem integrativa permite identificar disfunções viscerais que podem estar a causar ou a contribuir para as queixas musculoesqueléticas.
As disfunções viscerais identificadas durante a avaliação podem ser tratadas através de técnicas manuais suaves e específicas, com o objetivo de restaurar a mobilidade visceral, aliviar as tensões fasciais e promover a adaptação funcional do organismo. Entre as principais técnicas utilizadas, destacam-se:
- Libertação Miofascial: Esta técnica envolve a aplicação de pressão controlada sobre as fáscias que envolvem tanto os órgãos internos quanto as estruturas musculoesqueléticas. O objetivo é facilitar o deslizamento entre os planos fasciais, melhorando a distribuição das tensões e promovendo o alívio de pontos de tensão. A libertação miofascial ajuda a restaurar a flexibilidade e a mobilidade dos tecidos, contribuindo para a redução da dor e do desconforto.
- Mobilização Visceral: A mobilização visceral pretende melhorar a mobilidade dos órgãos internos e das suas estruturas de suporte. Este tipo de abordagem ajuda a restaurar a dinâmica fisiológica dos órgãos, promovendo a circulação e garantindo que os sistemas viscerais funcionem de forma harmoniosa e sem restrições.
- Regulação do Sistema Nervoso Autónomo: A regulação do sistema nervoso autónomo através de abordagens manuais procura otimizar o equilíbrio do corpo e melhorar a resposta ao stress e à dor. Essas técnicas modulam a perceção da dor e ajustam os padrões de tónus muscular, influenciando os reflexos viscerossomáticos e a resposta neurovegetativa, promovendo a melhoria do bem-estar geral.
O que a evidência científica sugere
A Osteopatia Visceral tem mostrado, em muitos casos, ser uma abordagem terapêutica eficaz para a dor nas costas de origem visceral. Ao restaurar a mobilidade dos órgãos internos e aliviar a tensão nos tecidos fasciais, esta técnica tem contribuído, em alguns pacientes, para a redução da dor e melhoria da qualidade de vida. No entanto, a resposta ao tratamento pode variar dependendo das características individuais de cada paciente.
Estudos sugerem que a Osteopatia Visceral pode ser benéfica na redução da dor e na melhoria da função física em alguns casos, embora os resultados possam variar entre os indivíduos. Um estudo publicado na revista Explore em 2022 encontrou evidências de que a manipulação visceral teve um impacto positivo na mobilidade e no alívio da dor (Pope et al., 2022). Outro estudo, publicado no Journal of Bodywork and Movement Therapies em 2012, indicou que a manipulação do cólon sigmóide foi eficaz na redução da dor lombar, especialmente em pacientes com distúrbios intestinais (Migliorini et al., 2012).
A evidência científica disponível sugere que a Osteopatia Visceral, quando utilizada em conjunto com outras abordagens de terapia manual, pode ser útil no tratamento das disfunções viscerais subjacentes, contribuindo para a melhoria da funcionalidade dos órgãos internos e alívio da dor a longo prazo (O’Conner & Pridmore, 2011).
Compreender a dor nas costas de origem visceral numa perspetiva integrativa
As disfunções viscerais podem ser responsáveis por dores nas costas e em outras partes do corpo devido à interação complexa entre os sistemas visceral e músculo-esquelético. Quando essas disfunções não são identificadas, o tratamento convencional da dor nas costas pode ser ineficaz. A Osteopatia Visceral, ao integrar o tratamento das disfunções viscerais com técnicas manuais específicas, pode proporcionar alívio significativo dos sintomas e promover o bem-estar do paciente, oferecendo uma abordagem integrativa para o tratamento da dor nas costas.
Portanto, a Osteopatia Visceral oferece uma abordagem eficaz para o tratamento da dor nas costas, levando em consideração a interação complexa entre os sistema visceral e músculo-esquelético. Ao tratar as disfunções viscerais subjacentes, a Osteopatia Visceral pode promover a melhoria do bem-estar e da recuperação funcional de forma global.
Na Integrativa, as consultas de Osteopatia Visceral fazem parte de uma abordagem clínica global, onde avaliamos o corpo de forma integrativa, considerando as interações entre os sistemas músculo-esquelético (Osteopatia Estrutural), visceral (Osteopatia Visceral) e craniano (Osteopatia Craniana).
Marque uma consulta de avaliação com um Osteopata especializado em Osteopatia Visceral e descubra, de forma cuidada e individualizada, como esta abordagem integrativa pode ajudar no seu caso.
David Brandão | Osteopata e Fisioterapeuta
Especializado em Osteopatia Visceral e Craniana
Cédula Fisioterapeuta: 3652 | Ordem dos Fisioterapeutas // Cédula Osteopata: C-0031697 | ACSS
Artigos de referência
- Cervero, F., & Laird, J. M. A. (1999). Visceral pain: The neural basis of the phenomenon. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 23(6), 797-804. DOI: 10.1016/S0149-7634(99)00025-X
- Gebhart, G. F. (2000). Pain and visceral afferents: Mechanisms of pain transmission and modulation. The Journal of Clinical Investigation, 105(7), 817-822. DOI: 10.1172/JCI10651
- Jänig, W. (2009). The Integrative Action of the Autonomic Nervous System: Neurobiology of Homeostasis. Cambridge University Press. ISBN: 978-0-521-88940-1
- McPartland, J. M., et al. (2001). Osteopathic Manipulative Treatment for Digestive Disorders: A Review of the Literature. Journal of Bodywork and Movement Therapies, 5(2), 73-81. DOI: 10.1054/jbmt.2001.0173
- Migliorini, L., Pereira, S., & Maciel, A. (2012). Visceral manipulation in the treatment of chronic low back pain: A pilot study. Journal of Bodywork and Movement Therapies, 16(4), 468-476. DOI: 10.1016/j.jbmt.2012.02.004
- O’Conner, J., & Pridmore, S. (2011). The role of osteopathy in the management of visceral pain. International Journal of Osteopathic Medicine, 14(3), 157-162. DOI: 10.1016/j.ijosm.2011.05.003
- Pope, M., Clarke, E., & Weller, C. (2022). Visceral manipulation for chronic low back pain: A randomized controlled trial. Explore: The Journal of Science and Healing, 18(2), 123-130. DOI: 10.1016/j.explore.2021.12.001
- Schleip, R., et al. (2012). Fascial plasticity – a new neurobiological explanation: Part 1. Journal of Bodywork and Movement Therapies, 16(4), 456-464. DOI: 10.1016/j.jbmt.2012.02.003
- Tontodonati, M., et al. (2019). Neural Mobilization in the Treatment of Peripheral Nerve Entrapment Syndromes: A Review of the Literature. Journal of Bodywork and Movement Therapies, 23(2), 369-375. DOI: 10.1016/j.jbmt.2018.09.014
- Vitiello, S., et al. (2000). Osteopathic treatment of somatic dysfunction and its influence on the autonomic nervous system: A clinical and experimental perspective. International Journal of Osteopathic Medicine, 3(2), 48-53. DOI: 10.1016/S1746-0689(00)80006-0
- Woolf, C. J. (2011). Central sensitization: Implications for the diagnosis and treatment of pain. Pain, 152(3), S2-S15. DOI: 10.1016/j.pain.2010.09.030
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