A inatividade física é atualmente reconhecida como um dos principais desafios de saúde pública. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, a percentagem de adultos sedentários ou pouco ativos situa-se entre os 60% e os 85% em vários países. O estilo de vida moderno, marcado por longos períodos na posição de sentado e baixos níveis de movimento diário, contribui para este cenário, com impacto relevante na saúde física e mental da população.
O movimento como necessidade básica do organismo
O movimento acompanha o ser humano ao longo de toda a vida. Desenvolver e manter algum nível de atividade física constitui uma necessidade básica para o bem-estar global, sendo um fator importante na prevenção dos efeitos associados ao sedentarismo. A atividade física regular tem sido associada a melhorias em diversos indicadores de saúde e a uma menor probabilidade de desenvolver doenças crónicas não transmissíveis.
O movimento numa perspetiva evolutiva
Ao longo da evolução humana, o corpo foi exposto de forma contínua a diferentes formas de movimento, como caminhar, correr, escalar e transportar cargas, num contexto marcado por exigências físicas e ambientais constantes. Esta exposição prolongada ao esforço contribuiu para a organização e desenvolvimento dos sistemas do organismo, permitindo respostas adaptativas eficientes às necessidades de sobrevivência. A evidência antropológica sugere que muitas características anatómicas e funcionais do ser humano resultam dessa relação estreita entre movimento e adaptação ao meio.
A investigação indica que o movimento desempenhou um papel relevante não apenas na evolução do sistema musculoesquelético, mas também na estrutura e no funcionamento do cérebro. O corpo humano parece ter evoluído para tolerar períodos prolongados de esforço cardiovascular e a atividade física regular associa-se a alterações positivas em processos neuronais, incluindo a plasticidade sináptica, a regulação de neurotransmissores e a modulação da inflamação. Mesmo num contexto moderno profundamente diferente, o movimento mantém um papel importante na regulação biológica, na saúde cognitiva e no equilíbrio global do organismo ao longo da vida.
Movimento, evolução humana e função cerebral
Do ponto de vista evolutivo, o corpo humano desenvolveu-se em estreita relação com o movimento. Caminhar, correr, escalar e transportar cargas fizeram parte da adaptação da nossa espécie ao longo de milhares de anos. A investigação sugere que o movimento teve um papel relevante não apenas na estrutura musculoesquelética, mas também no desenvolvimento e funcionamento do cérebro.
A atividade física regular associa-se a alterações positivas na plasticidade neuronal, na regulação de neurotransmissores e na modulação da inflamação sistémica, com impacto na saúde cognitiva e emocional.
Evidência científica e benefícios da atividade física
Nos últimos anos, a investigação científica tem vindo a relacionar níveis adequados de atividade física com uma redução do risco de várias condições, incluindo doenças cardiovasculares, alterações metabólicas, declínio cognitivo e alguns tipos de cancro. Estudos sugerem ainda que o exercício físico pode influenciar positivamente a resposta inflamatória e a função do sistema imunitário, contribuindo para uma maior capacidade de adaptação do organismo perante situações de stress fisiológico.
Promoção da atividade física em saúde pública
Com o objetivo de promover estilos de vida mais ativos, a Direção-Geral da Saúde, em articulação com a Organização Mundial da Saúde, desenvolveu o Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física. Este programa procura sensibilizar a população para a importância do movimento regular e incentivar políticas que favoreçam a redução do sedentarismo, reconhecendo que as recomendações devem ser ajustadas à idade, condição física e contexto individual.
Recomendações ao longo do ciclo de vida
- Crianças e adolescentes: Na infância e adolescência, a atividade física inclui brincar, jogar, praticar desporto, deslocar-se a pé ou de bicicleta e participar em tarefas diárias. Para esta faixa etária, é recomendada a prática regular de atividades aeróbias, complementadas com exercícios que promovam o fortalecimento muscular e ósseo, idealmente em contexto familiar, escolar ou comunitário.
- Adultos em idade ativa: Nos adultos, a atividade física pode assumir múltiplas formas, desde o exercício estruturado até ao movimento associado às deslocações, tarefas domésticas ou atividades de lazer. As recomendações apontam para a acumulação semanal de atividade aeróbia de intensidade moderada ou vigorosa, associada a exercícios de fortalecimento muscular em dois ou mais dias por semana.
- Adultos mais velhos: Em adultos com mais de 65 anos, a atividade física mantém princípios semelhantes, com maior foco na preservação da força, mobilidade e equilíbrio. Em pessoas com mobilidade reduzida, exercícios orientados para a estabilidade postural podem contribuir para a redução do risco de quedas e para a manutenção da autonomia funcional.
Movimento no dia a dia: pequenas mudanças com impacto
Mesmo na ausência de exercício estruturado, aumentar o movimento no quotidiano pode ter benefícios relevantes. Optar pelas escadas em vez do elevador, caminhar em pequenas deslocações ou integrar pausas ativas na rotina diária são estratégias simples que ajudam a reduzir o tempo em comportamento sedentário.
Impacto da atividade física nos sistemas do organismo
A atividade física influencia múltiplos sistemas fisiológicos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, níveis adequados de movimento associam-se a melhorias na saúde cardiovascular, no controlo metabólico, na função músculo-esquelética e no bem-estar psicológico. O exercício regular relaciona-se ainda com melhor qualidade do sono, maior mobilidade articular e melhor capacidade funcional ao longo do envelhecimento.
Atividade física e exercício físico: compreender a diferença
A atividade física refere-se a qualquer movimento corporal que resulte num aumento do gasto energético, como caminhar, subir escadas ou realizar tarefas domésticas. O exercício físico corresponde a uma forma estruturada, planeada e repetida de atividade física, com objetivos específicos de melhoria da aptidão física. Ambas desempenham um papel relevante na promoção da saúde.
Quanto movimento é recomendado?
As recomendações internacionais sugerem que os adultos acumulem, em média, cerca de 150 minutos semanais de atividade física de intensidade moderada ou 75 minutos de atividade vigorosa, podendo esta ser distribuída ao longo da semana de forma flexível.
A atividade física como estratégia sustentável de saúde
Promover a atividade física não implica desempenhos atléticos nem longas horas de treino. O objetivo é favorecer um nível de movimento que permita ao organismo responder melhor às exigências físicas e mentais do dia a dia, respeitando os limites individuais.
A atividade física regular associa-se a benefícios como melhor controlo do peso, regulação da pressão arterial e da glicemia, melhoria da força, equilíbrio e resistência, bem como impacto positivo no humor e na perceção de bem-estar.
Começar e manter: facilitar a adesão ao movimento
Iniciar a prática de atividade física pode representar um desafio, sobretudo quando o movimento não faz parte da rotina diária. A evidência sugere que estratégias simples e ajustadas ao contexto individual podem facilitar a adesão e a manutenção da atividade física ao longo do tempo.
Alguns princípios práticos que podem apoiar este processo incluem:
- Ter um objetivo claro e realista
- Escolher uma atividade que seja agradável e motivadora
- Iniciar com exercícios em que se sinta confortável e confiante
- Dividir o treino em períodos curtos, especialmente nas fases iniciais
- Definir metas a curto e a longo prazo
- Sempre que possível, integrar o exercício como a primeira tarefa do dia
- Manter roupa de exercício disponível, consigo ou no carro
- Utilizar música para tornar a prática mais prazerosa
A integração gradual do movimento no quotidiano, respeitando as preferências e os limites individuais, tende a favorecer a continuidade da prática e a tornar a atividade física uma componente sustentável do cuidado com a saúde.
Movimento como parte do cuidado com a saúde
Promover a atividade física é promover saúde. Pequenas mudanças, mantidas de forma consistente, podem contribuir de forma significativa para o bem-estar físico, mental e funcional. O movimento está ao alcance de todos, e cada passo conta.
David Brandão | Osteopata e Fisioterapeuta
Especializado em Psiconeuroimunologia Clínica
Cédula Fisioterapeuta: 3652 | Ordem dos Fisioterapeutas // Cédula Osteopata: C-0031697 | ACSS
Artigos de referência
- Raichlen DA, Polk JD. 2012 Linking brains and brawn: exercise and the evolution of human neurobiology. Proc R Soc B 280: 20122250. http://dx.doi.org/10.1098/rspb.2012.2250
- Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física. (2020). Retrieved 25 October 2020, from https://www.dgs.pt/programa-nacional-para-a-promocao-da-atvidade-fisica/perguntas-e-respostas.aspx
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- (2020). Retrieved 25 October 2020, from https://www.euro.who.int/en/health-topics/health-emergencies/coronavirus-covid-19/publications-and-technical-guidance/noncommunicable-diseases/stay-physically-active-during-self-quarantine
Integrativa | A saúde e o bem-estar como um estilo de vida














