Há mulheres que, poucas semanas depois do parto, começam a sentir-se novamente confortáveis no seu corpo. Outras precisam de mais tempo. E outras continuam a sentir alterações meses depois, mesmo quando, aparentemente, “já devia estar tudo bem”.
A barriga está diferente. A cicatriz incomoda. As costas ou a bacia doem. O pavimento pélvico parece não responder da mesma forma. Surgem perdas de urina, sensação de peso ou desconforto durante a relação sexual. O regresso ao exercício não está a ser tão simples como esperavam. Ou existe apenas uma sensação difícil de explicar: o corpo ainda não parece verdadeiramente seu.
A fisioterapia no pós-parto pode ter um papel importante neste processo. Não apenas quando existe um sintoma específico, mas também para compreender as alterações que aconteceram e acompanhar o regresso progressivo ao movimento.
O pós-parto não termina quando termina o puerpério
Existe uma ideia muito comum de que, depois das primeiras seis semanas, o corpo já deveria estar recuperado.
Mas seis semanas não significam que todas as estruturas do corpo estejam recuperadas ou que todas as mulheres devam sentir-se como antes da gravidez.
A gravidez e o parto provocam alterações importantes no corpo. O pavimento pélvico, a parede abdominal, a bacia, a coluna, os tecidos e as cicatrizes passam por diferentes processos de adaptação e recuperação.
E há ainda outra mudança que muitas vezes fica esquecida.
Depois do parto, a mulher passa a carregar, alimentar, embalar e cuidar de um bebé. Dorme menos, passa muito tempo em determinadas posições, pega no bebé inúmeras vezes ao dia e pode deixar de se movimentar da forma habitual.
O corpo não está apenas a recuperar do parto. Está também a adaptar-se a uma vida completamente diferente.
Nem tudo deve ser simplesmente aceite como “normal do pós-parto”
É verdade que algumas alterações são frequentes depois da gravidez e do parto. Mas ser frequente não significa que tenha de ser ignorado.
Perder urina quando se tosse, corre ou salta, sentir peso na região pélvica, ter dor persistente, sentir desconforto na relação sexual ou dificuldade em retomar determinadas atividades são situações que merecem ser avaliadas.
Não significa necessariamente que exista um problema grave. Significa apenas que há um sintoma que merece ser compreendido. Não é preciso esperar que o desconforto seja intenso ou que interfira muito com a vida diária para procurar ajuda.
O pavimento pélvico também precisa de recuperar
Durante a gravidez e o parto, o pavimento pélvico é sujeito a alterações importantes.
Depois, precisa de voltar a participar em tarefas muito diferentes: levantar o bebé, pegá-lo ao colo, caminhar, correr, saltar, treinar ou simplesmente passar várias horas de pé.
Por isso, recuperar o pavimento pélvico não significa apenas fazer contrações.
É importante perceber como os músculos contraem, mas também como relaxam, como coordenam com a respiração e com a parede abdominal e como respondem às diferentes exigências do dia a dia.
É aqui que a fisioterapia pélvica no pós-parto pode ter um papel importante: na avaliação da função do pavimento pélvico, na recuperação da coordenação muscular e no regresso progressivo às atividades que fazem parte da vida de cada mulher.
Uma boa recuperação não é apenas conseguir contrair um músculo. É conseguir utilizá-lo de forma adequada àquilo que o corpo precisa.
E a diástase abdominal?
A diástase abdominal é uma das alterações que mais preocupam algumas mulheres depois da gravidez. Mas uma diástase não se resume a medir quantos centímetros existem entre os músculos retos abdominais. É também importante perceber como a parede abdominal funciona, como gere a pressão e como responde ao movimento e às diferentes cargas.
Duas mulheres podem ter uma distância semelhante entre os músculos e apresentar experiências completamente diferentes. Por isso, avaliar o funcionamento do corpo é mais importante do que olhar apenas para um número.
A fisioterapia pode ajudar a avaliar a parede abdominal e a orientar a progressão do movimento e do exercício de acordo com as necessidades de cada mulher.
A cicatriz também faz parte do corpo
Uma cicatriz de cesariana, de episiotomia ou de uma laceração não é apenas uma marca na pele. Dependendo do caso, pode existir alteração da sensibilidade, mobilidade dos tecidos, tensão ou desconforto. A cicatriz deve ser observada no contexto de todo o corpo e não isoladamente.
Da mesma forma, uma cesariana não significa que a recuperação deva centrar-se apenas no abdómen, tal como um parto vaginal não significa que só seja necessário olhar para o pavimento pélvico. O corpo funciona como um conjunto.
A fisioterapia pode integrar a avaliação da cicatriz com a restante função do corpo, tendo em conta os sintomas e as atividades que a mulher pretende recuperar.
Quando a relação sexual passa a ser desconfortável
A dor ou o desconforto durante a relação sexual também podem fazer parte da experiência de algumas mulheres no pós-parto.
Alterações dos tecidos, secura, cicatrizes, tensão muscular ou receio do movimento podem contribuir para essa experiência.
Mas não significa que a mulher tenha de se habituar à dor.
Quando existe desconforto persistente, perceber o que está a contribuir para ele pode ser o primeiro passo para encontrar uma forma adequada de o abordar.
A fisioterapia pélvica pode fazer parte dessa avaliação, sempre integrada na história e nas necessidades individuais da mulher.
Voltar ao exercício também é uma recuperação
Depois do parto, pode existir vontade de recuperar rapidamente a força ou regressar ao exercício que se fazia antes da gravidez. Mas a recuperação não é uma corrida.
O exercício pode fazer parte do pós-parto e é importante para a saúde física e mental. No entanto, a progressão deve ter em conta a história de cada mulher, o tipo de parto, os sintomas presentes, o nível de atividade anterior e aquilo que pretende voltar a fazer.
Não existe um único momento em que todas as mulheres estejam preparadas para correr, saltar, fazer determinados exercícios ou regressar ao treino anterior.
Existe um caminho entre o repouso e o regresso completo à atividade e esse caminho pode ser diferente para cada mulher. A fisioterapia pode ajudar a avaliar esse caminho e a definir uma progressão adequada, respeitando a resposta do corpo.
Quando vale a pena procurar avaliação?
Não é preciso estar “muito mal” para procurar ajuda. Dor persistente, perdas de urina ou fezes, sensação de peso pélvico, desconforto na relação sexual, alterações na cicatriz, dificuldade em retomar o exercício ou simplesmente a sensação de que o corpo não está a responder como antes são motivos válidos para procurar avaliação.
A avaliação pode ser feita no âmbito da fisioterapia no pós-parto, incluindo, quando indicado, uma abordagem de fisioterapia pélvica. E não é preciso esperar que exista um problema grave, mas sim perceber o que mudou e de que forma o corpo pode ser ajudado a adaptar-se novamente.
Recuperar não significa voltar ao corpo de antes
Talvez esta seja uma das ideias mais importantes. O objetivo da recuperação pós-parto não precisa de ser recuperar o corpo que existia antes da gravidez. Esse corpo passou por uma experiência enorme.
O objetivo pode ser outro: voltar a sentir conforto, confiança e segurança no próprio corpo; voltar a caminhar sem dor; voltar a correr sem perdas de urina; conseguir pegar no bebé sem sentir dor nas costas; sentir novamente força; retomar o exercício de forma progressiva; sentir-se confortável na relação sexual; sentir a cicatriz como parte do corpo, sem que ela determine aquilo que é possível fazer. São objetivos diferentes para cada mulher.
Ouvir o corpo não significa ter medo dele
Depois de ser mãe, é fácil começar a interpretar cada sensação como algo que “ficou mal”. Mas o corpo não precisa de ser visto como um problema para ser cuidado. Precisa de ser observado. Perceber o que mudou, o que incomoda, o que melhorou e aquilo que ainda não conseguimos fazer como gostaríamos pode ser o primeiro passo para uma recuperação mais consciente.
Porque o pós-parto não é apenas o período em que o corpo recupera do parto. É também o período em que uma mulher aprende a conhecer novamente o seu corpo, desta vez, depois de tudo o que mudou.
E talvez a pergunta não seja: “Quando é que o meu corpo volta ao normal?”. Talvez seja: “O que é que o meu corpo está a tentar dizer-me?”
Cuidar do corpo depois de ser mãe também é dar espaço a essa pergunta.
Na Integrativa, a fisioterapia no pós-parto e a fisioterapia pélvica permitem avaliar de forma individualizada as alterações e os sintomas que podem surgir depois da gravidez e do parto. O acompanhamento é adaptado às necessidades, aos objetivos e ao ritmo de cada mulher, promovendo um regresso progressivo e seguro às atividades do dia a dia e ao exercício.
Alexandra Gomes | Fisioterapeuta especializada em Fisioterapia Pélvica
Cédula Fisioterapeuta: 1459 | Ordem dos Fisioterapeutas
Integrativa | A saúde e o bem-estar como um estilo de vida














