É comum ouvir pessoas dizerem que têm “má memória” quando, na verdade, o que está comprometido é a atenção. Esquecem-se de nomes, de tarefas, de onde deixaram objetos ou do que iam fazer a seguir e concluem rapidamente que algo não está a funcionar bem. No entanto, memória e atenção não são a mesma coisa, apesar de estarem intimamente ligadas.
A atenção é a porta de entrada da informação. É o processo que nos permite focar, selecionar e manter contacto com o que está a acontecer no momento presente. A memória surge depois. Para algo ser lembrado, precisa primeiro de ter sido verdadeiramente atendido. Quando estamos distraídos, sobrecarregados ou em modo automático, a informação até pode passar por nós, mas não chega a ser registada. Não porque a memória falhou, mas porque nunca houve atenção suficiente para que o registo acontecesse.
Em contextos de stress, esta confusão torna-se ainda mais frequente. O stress consome recursos cognitivos e coloca o cérebro em modo de sobrevivência. A mente fica mais orientada para a ameaça, para o que falta fazer, para o que pode correr mal. Neste estado, a atenção fragmenta-se, salta de estímulo em estímulo e perde profundidade. O resultado é um desempenho cognitivo aparentemente pior, com esquecimentos frequentes, dificuldade em manter o foco e a sensação de estar sempre atrasado em relação a si próprio.
Este fenómeno não significa perda de capacidades. Significa sobrecarga. Quando o sistema está constantemente ativado, torna-se mais difícil sustentar atenção suficiente para que a memória funcione de forma eficaz. E quanto mais a pessoa se critica por “não se lembrar de nada”, maior tende a ser a ansiedade, criando um ciclo que reforça a distração e o cansaço mental.
Fazer uma coisa de cada vez permite que a informação seja processada com mais profundidade e que o cérebro tenha espaço para registar o que importa é algo que se tem mostrado bastante eficaz, assim como guardar informação em listas ou lembretes não é sinal de fraqueza, mas uma estratégia adaptativa que liberta recursos mentais e diminui a sobrecarga interna.
Também as pausas têm um papel central. Um cérebro em esforço contínuo perde eficiência. Parar de forma intencional, mesmo por breves momentos, ajuda a regular o nível de ativação e a restaurar a capacidade atencional. Não se trata de desligar, mas de permitir que o sistema respire.
Muitas das queixas associadas à “má memória” melhoram quando se olha para o contexto emocional e cognitivo em que a pessoa está inserida. Em vez de perguntar “o que se passa de errado comigo?”, pode ser mais útil perguntar “em que estado está a minha atenção?”. Cuidar da atenção é, muitas vezes, a forma mais eficaz de cuidar da memória.
Porque lembrar não é apenas uma questão de capacidade. É, sobretudo, uma questão de presença.
Madalena Raposo | Psicóloga
Cédula Fisioterapeuta: 30344 | Ordem dos Psicólogos
Integrativa | A saúde e o bem-estar como um estilo de vida














