Há momentos em que a vida continua a acontecer, mas a nossa atenção está totalmente focada por uma preocupação. Estamos presentes fisicamente, mas mentalmente noutro lugar. O problema torna-se o centro da experiência. O resto passa quase despercebido.
Talvez já tenhas sentido isto: estás num jantar, numa caminhada, num momento que deveria ser leve, mas a tua mente insiste em voltar ao mesmo tema. Uma conversa que correu mal. Uma decisão por tomar. Um cenário que ainda nem aconteceu. O corpo está ali. A mente está presa.
A atenção é um recurso limitado. Quando se fixa rigidamente numa ameaça percebida, tudo o resto perde prioridade. O cérebro entra num modo de vigilância, como se estivesse à procura de sinais que confirmem que há algo a resolver. E mesmo quando não há informação nova, continuamos a pensar, a analisar, a antecipar.
O curioso é que muitas destas “ameaças” não são acontecimentos reais no momento presente. São interpretações, hipóteses, cenários imaginados. Ainda assim, o cérebro reage como se estivesse perante perigo concreto. A ativação fisiológica aumenta, o foco estreita-se, e a experiência torna-se reduzida a um único ponto.
Quando isto acontece repetidamente, a perceção da realidade altera-se. O tempo parece passar mais depressa ou mais devagar. Pequenos momentos positivos deixam de ser registados. A memória começa a organizar-se em torno do problema. Não é que a vida tenha parado. É a atenção que ficou aprisionada.
Em consulta, é comum ouvir: “Eu preciso de pensar nisto até resolver.” Existe a ideia de que ruminar é sinónimo de responsabilidade ou produtividade. Mas, na maioria das vezes, pensar repetidamente sobre o mesmo tema não gera novas soluções. Gera apenas desgaste.
Estar atento a um problema é diferente de estar dominado por ele.
A flexibilidade atencional, a capacidade de deslocar o foco quando necessário, é uma competência psicológica treinável. Não significa ignorar dificuldades nem forçar pensamento positivo. Significa reconhecer quando o pensamento deixou de ser útil e escolher conscientemente para onde direcionar a energia mental.
Quando aprendemos a fazer este movimento, algo muda. A experiência torna-se mais ampla. A mente deixa de funcionar apenas em modo de ameaça. O presente volta a ter espaço.
O problema pode continuar a existir. Mas já não ocupa toda a paisagem.
Madalena Raposo | Psicóloga
Cédula Fisioterapeuta: 30344 | Ordem dos Psicólogos
Integrativa | A saúde e o bem-estar como um estilo de vida














